LEIA, CURTA COMPARTILHE As eleições legislativas norte-americanas de 3 de novembro de 2026 deixaram uma lição maior que a derrota do Partido Republicano e de Donald Trump: o poder democrático pertence aos cidadãos, não aos governantes. Ao contrariar o presidente e fortalecer a oposição, o eleitorado reafirmou esse princípio. Trump reconheceu o resultado adverso. Perdeu politicamente, mas as instituições permaneceram intactas. É nessa capacidade de submeter o poder à vontade do eleitor que a experiência americana oferece ao Brasil seu contraste mais importante: a democracia deve proteger o direito de contrariar quem governa, não o governante contra quem discorda.
Há algo particularmente significativo nesse episódio. Nos Estados Unidos, onde predominam cédulas de papel e existem mecanismos de auditoria e recontagem, o eleitor dispõe de garantias materiais de verificação. O sistema não é perfeito, mas permite conferir resultados sem depender exclusivamente de registros eletrônicos.
No Brasil, a votação eletrônica oferece rapidez e mecanismos próprios de fiscalização, mas não produz um registro físico do voto conferível pelo eleitor. A diferença merece reflexão séria, não respostas automáticas. A confiança nas eleições não pode depender apenas da palavra das autoridades. Deve resultar de procedimentos transparentes, verificáveis e abertos ao legítimo questionamento público. Transparência não é concessão do poder: é compromisso com o cidadão.
A questão brasileira, entretanto, não termina nas urnas. O contraste com a experiência americana descrita aqui deve ser examinado também pela liberdade de expressão, pelo devido processo legal e pelos limites constitucionais da atuação das autoridades. O que se deve exigir do Brasil é o mesmo princípio celebrado nos Estados Unidos: instituições fortes o suficiente para aceitar a contestação e limitadas o suficiente para não se colocar acima dela. Quando decisões de grande repercussão despertam dúvidas sobre proporcionalidade ou imparcialidade, invocar a autoridade de quem as proferiu não basta. É necessário oferecer fundamentos capazes de resistir ao exame público. A autoridade não substitui a legitimidade. Democracias sólidas não temem perguntas. Respondem a elas.
A derrota republicana também revelou um problema político mais profundo. Como observou o jornalista Ivan Kleber Fonseca, em análise transmitida de Londres, Trump perdeu parte da confiança de sua própria base. Muitos eleitores que o apoiaram em 2024 demonstraram insatisfação com a distância entre as promessas de campanha e os resultados do governo.
Comunidades latino-americanas esperavam uma atuação mais decisiva diante dos regimes de Cuba e Venezuela. Agricultores e pecuaristas passaram a questionar políticas comerciais e relações com grandes grupos empresariais, entre eles a JBS. A condução da política migratória também provocou críticas, inclusive entre defensores de controles mais rigorosos nas fronteiras.
Mas a economia parece ter sido determinante. O aumento do custo de vida e as consequências da guerra com o Irã atingiram diretamente as famílias americanas. Trump prometera prosperidade e o afastamento de novos conflitos prolongados. O eleitor cobrou resultados. Afinal, nenhuma retórica política resiste indefinidamente ao preço dos combustíveis e às contas do fim do mês.
Para o Brasil, a nova composição do Congresso americano não significa necessariamente uma aproximação entre Washington e Brasília. Trump poderá buscar na política externa oportunidades para recuperar prestígio, especialmente na América Latina, onde a influência chinesa, o narcotráfico e os regimes autoritários continuam presentes na agenda norte-americana. Marco Rubio poderá desempenhar papel relevante nesse cenário.
A derrota também antecipa a disputa presidencial de 2028. JD Vance sai politicamente pressionado, enquanto Rubio e Ron DeSantis surgem como possíveis alternativas republicanas. Os democratas, por sua vez, terão de provar que sabem governar, e não apenas vencer seus adversários.
A história ensina que a democracia não se fortalece pela unanimidade, mas pelo direito de discordar. Não exige governantes infalíveis, mas instituições que reconheçam seus próprios limites. Tampouco admite que a defesa da ordem constitucional seja utilizada para restringir as liberdades que deveria proteger.
O Brasil tem razões suficientes para refletir sobre essa experiência. A comparação não exige idealizar os Estados Unidos, mas cobrar da democracia brasileira o mesmo compromisso com a soberania do cidadão. Transparência, independência das instituições e igualdade perante a lei não podem depender das conveniências de cada momento político. O critério deve ser o mesmo nos dois países: a liberdade de discordar precisa valer sobretudo quando incomoda o poder. Sem esse compromisso, a defesa da democracia corre o risco de se confundir com a defesa de quem a administra.
Nos Estados Unidos, o eleitorado contrariou o presidente e o sistema político absorveu o resultado. É essa resposta institucional, e não a vitória de um partido, que merece destaque perante o Brasil. A democracia brasileira deve ser cobrada por essa mesma medida: quanto espaço assegura ao cidadão para escolher, fiscalizar e contestar? Uma democracia madura permite corrigir os rumos do país sem pedir licença ao poder. Governantes passam. O direito de escolher, discordar e cobrar deve permanecer. A lição americana para o Brasil é clara: a democracia não se mede pela força de quem manda, mas pela liberdade de quem pode dizer não.
José Roberto de Souza Dias
Two Flags Post | 4 de novembro de 2026
Artigo de opinião baseado em análise do jornalista Ivan Kleber Fonseca.


