United Nations World Food Programme - WFP

Por Rob Picheta, CNN INTERNATIONAL – Atualizado 0956 GMT (1756 HKT) 22 de abril de 2020

Londres (CNN) O mundo, em alguns meses, enfrentará escassez de alimentos de “proporções bíblicas”, informou a ONU, alertando que a pandemia de coronavírus levará mais 130 milhões de pessoas à beira da inanição.

A escassez poderá acontecer em “cerca de três dúzias de países” no pior cenário, disse David Beasley, diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos (PMA) em um pronunciamento na terça-feira. Dez desses países já têm mais de 1 milhão de pessoas à beira da fome, disse ele.

Ele citou o conflito, a recessão econômica, o declínio na ajuda e o colapso nos preços do petróleo como fatores que, provavelmente, levarão a uma grande escassez de alimentos, e pediu ações rápidas para evitar o desastre.

“Enquanto lidamos com uma pandemia de Covid-19, também estamos à beira de uma pandemia de fome”, disse David Beasley ao conselho de segurança da ONU. “Há também um risco real de que mais pessoas possam morrer pelo impacto econômico do Covid-19 do que pelo próprio vírus”.

O  PMA Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (United Nations World Food Programme – WFP)  já havia alertado que 2020 seria um ano devastador para vários países dominados pela pobreza ou pela guerra, com 135 milhões de pessoas enfrentando níveis de crise com escassez ou miséria. Suas projeções atualizadas quase dobram esse número.

Quando adicionado aos 821 milhões de pessoas com subnutrição crônica, aquele cenário levaria mais de 1 bilhão de pessoas a situações tenebrosas.

A agência identificou 55 países com maior risco de mergulhar na fome em seu relatório anual sobre crises alimentares, divulgado nesta semana, alertando que seus frágeis sistemas de saúde não serão capazes de lidar com o impacto do vírus.

“Esses países poderão enfrentar uma troca excruciante entre salvar pessoas do coronavírus para que elas morram de fome”, afirmou o relatório.

Dez países foram apontados como particularmente em risco, depois de enfrentarem as piores crises alimentares do ano passado; Iêmen, República Democrática do Congo, Afeganistão, Venezuela, Etiópia, Sudão do Sul, Sudão, Síria, Nigéria e Haiti.

Até agora, a maioria desses países foi poupada do pior da pandemia de coronavírus, com o epicentro mudando da China para a Europa e para a América do Norte, mas o estado de suas instituições de saúde prevê que mesmo surtos relativamente pequenos, podem ser devastadores. Até o momento, mais de 2,5 milhões de casos do coronavírus foram confirmados globalmente.

O tempo não está do nosso lado

 Mesmo antes do surto do coronavírus, o suprimento de alimentos em algumas das regiões mais vulneráveis ​​do mundo estava sendo diretamente afetado por impactos como falhas de safras e enxames de gafanhotos.

Secas excepcionais seguidas por chuvas extremamente pesadas diminuíram acentuadamente o rendimento sazonal das culturas no Chifre de África durante 2019(*).

Os padrões irregulares de tempo e clima nessa região africana, contribuíram para a pior invasão de gafanhotos do deserto em 25 anos, o que ameaçou ainda mais o suprimento de culturas na região.

A combinação de conflitos, alterações climáticas e pragas nas culturas resultou na pior crise alimentar que já afetou o Iêmen, segundo a agência da ONU.

Os novos fatores relacionados ao coronavírus, além dos que já afetam a região. ” Se antevê que bloqueios e recessão econômica possam levar a uma grande perda de renda entre os trabalhadores pobres”, disse Beasley. As remessas para o exterior também cairão drasticamente, afetando países como Haiti, Nepal e Somália, por exemplo.

“A perda de receita turística prejudicará a Etiópia (e) o colapso dos preços do petróleo terá um impacto importante em países de baixa renda como o Sudão do Sul, acrescentou.

Ele apelou aos Estados membros da ONU para agirem agora, dizendo-lhes: “Ainda não há fome. Mas devo adverti-los de que, se não nos prepararmos e agirmos agora – para garantir o acesso, evitar déficits de financiamento e interrupções no comércio – poderemos estar enfrentando uma fome de proporções bíblicas em poucos meses.

“A verdade é que não temos tempo do nosso lado, então vamos agir sábia e rapidamente”, acrescentou. “Acredito que, com nossa experiência e parcerias, possamos reunir equipes e programas necessários para garantir que a pandemia do Covid-19 não se torne uma catástrofe humanitária e de crise alimentar”.

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(*) Chifre da África, também conhecido como Sudeste Africano e algumas vezes como Península Somali, é uma designação da região sudeste do continente africano, que inclui a Somália, a Etiópia, a Eritréia. Tem uma área de aproximadamente 2 milhões de km quadrados  e uma população de cerca de 116 milhões de pessoas (Etiópia: 94,3 mi, Somália: 14,7 mi; Eritreia: 5 mi; Djibuti: 956 mil).

Obs: adendo por Twoflagspost

(*)  Em função da utilidade pública desta excelente matéria da CNN Internacional à reproduzimos na integra  em tradução não literal.

Two Flags Post/ Redação