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1968: o ano que ainda não terminou – By André Garcia Martins

quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Em 1989 o jornalista Zuenir Ventura escreveu um livro intitulado “1968: O Ano Que Não Terminou”, no qual, sinteticamente, procura narrar diversos acontecimentos históricos (sociais, políticos, culturais, etc.), que eclodiram em praticamente todos os países do globo terrestre. A gênese de tudo isso, foi o movimento estudantil ocorrido na Universidade de Nanterre, situada na França que, ao atingir uma escala planetária, passou para a história como o “Movimento de Maio de 1968”.

Várias eram as demandas sociais que exigiam mudanças na sociedade, entre as quais destacam-se a Liberação Sexual, Guerra do Vietnam e Incremento dos Direitos Civis, além das culturais marcadas pelo movimento “Flower Power”, cujos desdobramentos incidiam na música, teatro e cinema. Em outras palavras, o mundo encontrava-se em grande efervescência, e essas contestações foram o “rastilho de pólvora” que culminou com a “explosão” mundial, verificada no ano de 1968, conhecida como Movimento de Maio de 1968”.

Sem reservas, pode-se afirmar que os movimentos que, coincidentemente, despontaram no ano de 1968 foram os mais expressivos do Século XX, pois além de promover significativas mudanças na sociedade, favoreceram, entre vários aspectos, o surgimento de novos líderes políticos, tais como Martin Luther King e, digamos, a popularização de obras produzidas por pensadores que fizeram parte de uma geração que compôs o que se conheceu como “Escola de Frankfurt” (Max Horkheimer, Friedrich Pollock, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Erich Fromm, Jurgen Habermas e  Wilhelm Reich), inspiradas no ideário do Marxismo Cultural que, de maneira significativa, e de modo geral, nortearam o ideário e a execução de ações práticas em todo o mundo[1].

O Brasil, naquela oportunidade, encontrava-se em plena vigência do regime militar, instituído após a deposição do Presidente João Goulart em 1964, e a partir de 1968 houve o que se poderia tipificar como “um recrudescimento do regime”, uma vez que a contar de 13 de dezembro do mesmo ano passou a vigorar o Ato Institucional nº 5 (quinto dos dezessete grandes decretos emanados pelo regime militar a partir de 1964). Instrumento legal este cujos efeitos vigoraram até dezembro de 1978 e que, entre vários aspectos, redundou na cassação de vários parlamentares, possibilitou o fechamento do Congresso Nacional, suspendeu a garantia do habeas-corpus e cerceou as liberdades individuais.

Em síntese, os fatos ocorridos em 1968 fizeram com que tal ano ficasse (sic) “marcado na história mundial e na do Brasil como um momento de grande contestação da política e dos costumes”. O movimento estudantil celebrizou-se como “protesto dos jovens contra a política tradicional, mas principalmente como demanda por novas liberdades”. O radicalismo jovem pode ser bem expresso no lema “é proibido proibir”. Esse movimento, no Brasil, associou-se a um combate mais organizado contra o regime: intensificaram-se os protestos mais radicais, especialmente o dos universitários, contra a ditadura. Por outro lado, a “linha dura” providenciava instrumentos mais sofisticados e planejava ações mais rigorosas contra a oposição[2].

Marcha da Família com D’ us pela Liberdade

Os acontecimentos ocorridos em 1968 foram, de fato, tão marcantes que os seus desdobramentos foram se sucedendo nos anos vindouros, e foi exatamente por essa razão, e com muita propriedade, que em 1989 o jornalista Zuenir Ventura afirmou que 1968 foi um ano que não havia terminado.

Passados 54 anos dos eventos ocorridos em 1968 nos encontramos no final de 2022, e, salvo melhor juízo, de modo geral o mundo ainda se encontra sob a égide dos efeitos oriundos de 1968.  Em função dos recentes acontecimentos, ocorridos no mundo, (pandemia, dominação globalista, guerra Rússia X Ucrânia), preliminarmente, pode-se afirmar que uma nova feição das relações sociais está em fase de implantação. Posto isto, pode-se intuir que os acontecimentos ocorridos remetem ao entendimento de que é bem possível que o ciclo iniciado no ano de 1968 deverá findar no final do presente ano de 2022, acarretando como consequência o início de um novo ciclo que terá início no próximo ano, isto é, em 2023. Nesse diapasão, diante dessa possível constatação, resta definir o papel que os agentes sociais que compõem as três gerações, nesse contexto vindouro.

Pátria somos todos nós. Photo André Garcia Martin

A rigor, três gerações de seres humanos deverão protagonizar os fatos que possivelmente irão ocorrer na, digamos, “nova fase da humanidade”, que provavelmente terá início em 2023: A geração que vivenciou o ano de 1968, partícipe direta dos processos de mudança e de implantação de bases teóricas que, em tese, irão findar em 2022; a geração que experimentou os efeitos das mudanças efetuadas pela primeira geração e, finalmente, a geração que deverá implementar novos paradigmas e referenciais teóricos para a humanidade. Cada geração deverá desempenhar um importante papel: Cabe à primeira geração, ou seja, aos contemporâneos de 1968, realizar as devidas ponderações, com o objetivo de eliminar, quando necessário, falsos ou mesmo ultrapassados conceitos, dando inclusive o devido apoio para que a segunda geração possa, efetivamente, se libertar de entendimentos equivocados, a fim de que esta fique imbuída de que a liberdade é um bem precioso, cujos preceitos permitirão avançar no desenvolvimento de novas bases teóricas, que deverão ser desenvolvidas  pela terceira geração.

___________________

[1] “A escola de Frankfurt foi uma escola de pensamento que surgiu sob o nome de Instituto de Pesquisas Sociais na Universidade de Frankfurt, Alemanha. Desde o princípio, foi criada com a finalidade de destruir a cultura ocidental, atacando o capitalismo, a dimensão religiosa da vida e a tradição clássica.

[2] Fonte: https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/AI5

Andre Garcia Martin
Andre Garcia Martinhttp://twoflagspost.com
Arquiteto e Urbanista, Mestre em Estruturas Ambientais Urbanas André Garcia Martin.´.

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