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Guerra Híbrida: vanguarda nas modalidades de guerras não convencionais – By Arquiteto André Garcia Martin(*)

domingo, maio 19, 2024

Fatos constatados, a partir de um passado recente, no espectro global não dão margem a dúvidas: A humanidade está submersa em seríssimas turbulências, decorrentes de um conflito mundial, de uma guerra peculiar, que alguns estudiosos, como é o caso do Major de Infantaria Hugo Miguel Moutinho Fernandes, que tipifica tal modalidade como “Guerra Híbrida”, também conhecida como Guerra de Quinta Geração.

Diante da abrangência, da complexidade do tema, da necessidade de compreender sua essência em toda a plenitude, assim como da finalidade deste texto que, em linhas gerais, visa prestar informações com vistas ao engrandecimento do cabedal de conhecimento sobre a matéria, julgamos ser de bom alvitre que expor uma síntese do trabalho intitulado “A Evolução da Arte da Guerra: Da 1ª à 4ª Geração”[1], elaborado pelo Prof. Dr. José Miguel Quedi Martins, com a colaboração de Edson José Neves Junior e Humberto Carvalho, para o XII Curso de Extensão em Defesa Nacional, ministrado na UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul e transcrever parte do trabalho intitulado “As novas guerras: O desafio da guerra híbrida”[2], de autoria do Major Hugo Miguel Moutinho Fernandes, pois ambos de maneira didática apresentam visões, de cunho militar, acerca das gerações de guerras observadas ao longo dos tempos.

Consta do trabalho elaborado Prof. Dr. José Miguel Quedi Martins a compreensão dos seguintes especialistas:

  1. O entendimento de Alvin e Heidi Toffler, que considera a existência de tres “ondas”, ou modalidades distintas de guerras[3]:

1ª Onda – Massas Humanas (Madeiras/Metais);

2ª Onda – Mecanização (Poder de Fogo/Motor a explosão/Tanques, aviões e submarinos);

3ª Onda – Sociedade do Conhecimento e da Informação (Computador e rede).

  1. O entendimento de Lind[4], no qual ocorre a exposição de quatro gerações de guerra, cujas peculiaridades residem na observância de suas características:

1ª Geração – Massa (Mosquete de alma lisa, formação compacta em linha);

2ª Geração – Poder de Fogo (Afirmação do Estado Soberano Territorial; Finanças como “mola do Estrado”; Soldados profissionais e/ou recrutamento forçado);

3ª Geração – Manobrabilidade (Treinamento militar; Constituição e fortalecimento da hierarquia castrense em moldes profissionais; diferenciação entre civis e militares; Protocolos de procedimentos e técnicas);

4ª Geração – Computador e Rede.

  1. O entendimento de Vladmir Slipichenko[5] que, por sua vez, considera a existência de seis gerações de guerra:

1ª Geração – Infantaria e Cavalaria, sem armas de fogo;

2ª Geração – Estado Moderno e mosquetes de alma lisa;

3ª Geração – Rifles da alma raiada, pistolas, artilharia de tubo com maior alcance e cadência de fogo e precisão;

4ª Geração – Mecanização (Do vapor ao motor de explosão);

5ª Geração – Guerra Nuclear (Mísseis balísticos e Cruzadores);

6ª Geração – Informatização (Guerra convencional com consciência de situação ampliada; Comando do Espaço; Munição Guiada de precisão, etc.).

Conforme já mencionado no início deste texto, com o intuito de melhor esclarecer o tema em objeto, a seguir adicionamos a transcrição de uma síntese dos entendimentos exarados pelo Major de Infantaria Hugo Miguel Moutinho Fernandes, extraídos do texto de autoria da internacionalista e advogada Julia Ignácio, constante no site https://www.politize.com.br/guerras-hibridas/onstante :

 Guerras de Primeira Geração (G1G)

Esses conflitos se iniciaram com o Tratado de Westfália, acontecimento histórico que definiu que todos os Estados eram soberanos e possuíam direito de escolher sua própria organização interna e orientação religiosa.

Nesse contexto, as guerras eram um monopólio do Estado-nação, ou seja, elas só poderiam ser realizadas pela força nacional do Estado. Para além disso, os enfrentamentos entre esses Estados eram caracterizados pelos exércitos numerosos e pela rigidez das táticas e formações lineares, em terra ou no mar.

O conflito mais emblemático desta geração foram as Guerras Napoleônicas (1803-1815).

Guerras de Segunda Geração (G2G)

A Revolução Industrial possibilitou uma mudança marcante nessa segunda geração de guerras. Nesse momento, pode-se observar o aumento do poder de fogo e do alcance e precisão das armas. As guerras também se tornarem maiores, com mais violência e mais países envolvidos.

O primeiro conflito desta geração foi a Guerra Civil Americana (1861-1865), no entanto, o exemplo mais emblemático foi a I Guerra Mundial (1914-1918).

Guerras de Terceira Geração (G3G)

A 3ª geração da guerra foi baseada principalmente na ideia de movimento.

Pode-se dizer que a II Guerra Mundial deixou grandes contribuições para esse novo marco temporal. Isso porque, durante tal conflito, as guerras deixaram de ser apenas com soldados no chão – assim, novos instrumentos passaram a ser utilizados como, por exemplo, carros de combate, submarinos e a própria aviação.

Outra característica marcante das G3G foi a blitzkrieg ou guerra-relâmpago (tática militar alemã). A tática se utilizou de tropas móveis com ataques rápidos e de surpresa com a finalidade de evitar que as forças inimigas, mesmo dotadas de grande capacidade de fogo, tivessem tempo de organizar uma defesa e, assim, fossem facilmente derrotadas.

Vale lembrar que utilizar esses ataques rápidos e de surpresa foi uma tática extremamente inovadora para a época, já que as guerras do passado eram muito rígidas, quase ensaiadas.

Guerras de Quarta Geração (G4G)

Os conflitos periféricos (locais ou regionais, envolvendo, inclusive, atores não-estatais) se proliferaram no período da Guerra Fria e levaram ao desenvolvimento das guerras de 4ª geração.

Os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, em 11 de setembro de 2001, foram o marco histórico desse momento.

Desde então, o mundo tem vivido uma espécie de “conflito de baixa intensidade permanente”, sujeito a surtos periódicos de média ou alta intensidade.

Nesse contexto, os conflitos costumam ser multidimensionais: envolvem ações em terra, no mar, no ar, no espaço exterior, no espectro eletromagnético e até no ciberespaço. O “inimigo” aqui pode não ser um Estado, mas um grupo terrorista, outra organização criminosa qualquer ou até mesmo civis. Da mesma forma, o alvo também pode ser qualquer um, não importando as consequências.

Guerras de Quinta Geração (G5G)

Guerras convencionais e não convencionais

É importante entender as gerações das guerras para compreendermos que existem guerras convencionais e as guerras não convencionais.

Nas convencionais, os conflitos eram terminantemente militares formais, com tanques e baionetas tomando as ruas e praças públicas, sendo expressões desse modelo, as guerras de 1ª geração. Já em guerras não convencionais, também chamadas de irregulares, o terrorismo, os movimentos de resistência, insurgência e conflitos assimétricos em geral se tornaram elementos indispensáveis.

A guerra irregular existe desde meados do séc. XX, a partir das guerras de 2ª geração, tornando-se a mais usual desde a Segunda Guerra Mundial, já que as táticas da 2ª e da 3ª geração passaram a coexistir nas Forças Armadas de quase todos os países do mundo.

E é nesse cenário de guerra irregular, em que existem diferentes instrumentos a serem utilizados, diversos atores e alvos, que as guerras híbridas foram caracterizadas.

O estudo da guerra híbrida é recente. Certamente, o 11 de setembro contribuiu demasiadamente para o desenvolvimento de estudos, fazendo com que diversos autores se dedicassem ao tema. Mas, de maneira geral, é um termo de difícil definição.

Em guerras híbridas, há uma mescla de instrumentos como, por exemplo, o uso de armas avançadas, tecnologias agressivas, ferramentas psicológicas, manipulação de problemas identitários (diferenças históricas, étnicas, religiosas, socioeconômicas, geográficas), promoção de desinformação, lawfare e outros meios.

Contudo, existem duas estratégias não militares consideradas essenciais para as guerras híbridas: as guerras informacionais e as guerras econômicas.

 Guerras informacionais

Há algum tempo os meios de comunicação passaram não somente a informar os indivíduos, mas também a formar a opinião desses grupos.

Com o avanço da tecnologia, surgiram instrumentos que são utilizados amplamente pela mídia em suas atividades corriqueiras como, por exemplo, a cibernética e as operações psicológicas.

Essas duas áreas representam hoje uma forma de ciência do controle da comunicação e da cognição humana. Assim, suas análises formais são bastante complicadas pois envolvem áreas das ciências, como engenharias e finanças.

Apesar disso, o que nos interessa quando falamos sobre guerras híbridas é que esses instrumentos servem hoje para apresentar o perfil das sociedades e, a partir disso, ser utilizado como uma arma de reprodução de estereótipos, incitação a reações populares de apoio ou desapoio a determinados assuntos, provocação de engajamento social e outras formas de manifestação pública.

Ou seja, a informação passou a ser um instrumento bastante utilizado nas guerras, pois contribuem para que os conflitos – declarados ou não – sejam noticiados, tornados públicos e até mesmo legitimados (ou seja, considerados como aceitáveis) por determinados grupos.

 Guerras econômicas

O conceito de guerra econômica não é nada recente, contudo, no século XX, um dos grandes mecanismos utilizados pelas grandes potências para obter ganhos sem a utilização do conflito armado como única solução.

Os antigos campos de batalha foram substituídos pelas grandes mesas de negociações fazendo a transição para uma disputa mais “suave” em comparação com o passado.

A troca comercial, os investimentos, os subsídios governamentais e as relações econômicas no mercado externo representam hoje um dos maiores meios de exercer influência no sistema internacional, afinal o que está em jogo aqui é a aquisição não somente de armamentos, mas também de tecnologias.

Quais interesses/objetivos em uma guerra híbrida?

Os interesses que permeiam as guerras hibridas são variados, pois oscilam de econômicos, militares ou geoestratégicos até a influência e demonstração de poder no Sistema Internacional.

Nas guerras híbridas, um dos principais objetivos é desestabilizar governos oponentes e suas instituições, criando o caos e um vazio de poder, além disso, a guerra híbrida é um instrumento extremamente útil quando há intenção em desestabilizar a ordem existente em um Estado nacional através, principalmente, da provocação de grandes movimentos de protesto, que podem então ser dirigidos por eles para atingir seus interesses políticos.

As guerras híbridas são eficazes na maximização de benefícios e minimização de danos, por isto, os Estados modernos detêm atualmente essa versão de guerra como preferíveis.

As revoluções coloridas do Leste Europeu – a Revolução das Rosas na Geórgia, a Revolução Laranja na Ucrânia e a Revolução das Tulipas no Quirguistão – e até mesmo a Primavera Árabe, poderiam ser qualificadas como demonstrações de guerras híbridas.

[1] Fonte: https://www.gov.br/defesa/pt-br/arquivos/ensino_e_pesquisa/defesa_academia/cedn/xii_cedn/2015a_xiia_cedna_evolucaoa_daa_artea_daa_guerraa_martins.pdf

[2] Fonte: https://www.ium.pt/pub/158

[3] TOFFLER, Alvin & TOFFLER, Heidi. Guerra e Antiguerra: sobrevivência na aurora
do Terceiro Milênio. Rio de Janeiro: Record, 1994.

[4] LIND, William; et al. The Changing Face of War: Into the Fourth Generation. Marine
Corps Gazette, p. 22-26, Oct. 1989.

[5] SLIPCHENKO, Vladimir. A Russian Analysis of Warfare Leading to the Sixth
Generation. Field Artillery, p. 38-41. Fort Sill, Oct. 1993

 

 

 

Andre Garcia Martin
Andre Garcia Martinhttp://twoflagspost.com
Arquiteto e Urbanista, Mestre em Estruturas Ambientais Urbanas André Garcia Martin.´.

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