Dra. Julia Greve

Fibromialgia

Fonte: Blog do Instituto VIVA

19 de abril de 2019

É uma disfunção caracterizada por dor muscular generalizada acompanhada por fadiga, distúrbios do sono, alterações de memória e de humor.

Acredita-se que a fibromialgia amplifica as sensações de dor porque afeta a maneira como o sistema nervoso central processa as informações dolorosas. Isso significa que a “doença” está no processamento das informações dolorosas pelo sistema nervoso central e não nas regiões periféricas dolorosas.

As estimulações repetidas dos nervos causam mudanças no cérebro e nas respostas cerebrais das pessoas com fibromialgia. Há um aumento do nível de neurotransmissores (substâncias químicas) que modulam as sensações dolorosas, amplificando a resposta cerebral: criando uma “memória” da dor, tornando-o mais sensível e reativo, mesmo com pequenos estímulos.

A fibromialgia compromete mais as mulheres que os homens. Os sintomas podem se iniciar de forma espontânea, gradual e progressiva ou após um traumatismo, cirurgia, infecção ou estresse psicológico. Dor generalizada é o principal deles. Pode estar associada com cefaleia, alterações da articulação têmporo-mandibular, intestino irritável, ansiedade e depressão.

Os principais sintomas são:

  • Dor constante, generalizada, com pouca ou nenhuma melhora com tratamentos analgésicos convencionais e que se mantém por três ou mais meses. O paciente refere dor em vários locais do corpo na forma de pontos dolorosos (Figura 1).
  • Fadiga – cansaço permanente, sem relação com o número de horas de sono.
  • Distúrbios do sono – sono interrompido, pouco reparador, síndrome da pernas inquietas e apneia.
  • Síndrome do intestino irritável
  • Enxaqueca e outras cefaleias
  • Cistite intersticial ou síndrome da bexiga dolorosa.
  • Dificuldades cognitivas – dificuldades para manter o foco, atenção e concentração durante a realização de tarefas.
  • Ansiedade e perfeccionismo exagerado também podem estar presentes.
Figura 1 – Distribuição dos Pontos Dolorosos na Fibromialgia.
Figura 1 – Distribuição dos Pontos Dolorosos na Fibromialgia.

Diagnóstico

Ainda não existe cura para a fibromialgia, mas muitos remédios ajudam no controle dos sintomas, juntamente com exercícios, relaxamento e medidas contra o estresse.

Nem todas as dores musculares são decorrentes de fibromialgia, mas dores generalizadas, resistentes ao tratamento e que persistem por três ou mais meses, precisam ser avaliadas para que se tenha o diagnóstico da doença.

As causas da fibromialgia ainda são desconhecidas e podem envolver vários fatores:

  • Genéticos – há uma tendência familiar de ocorrência da doença, possivelmente por mutações genéticas que aumentam a susceptibilidade para a doença.
  • Infecções – podem ser agravantes ou desencadeantes da doença.
  • Traumas – físicos ou emocionais podem desencadear o aparecimento dos sintomas. Cirurgias, acidentes ou estresse emocional podem causar a doença.

O diagnóstico da fibromialgia é clínico: história e exame físico, visto que não se observam alterações nos exames de laboratório e mesmo de imagem. Normalmente, estes dados são suficientes para o diagnóstico, principalmente pela presença da dor generalizada.

Mais recentemente, tem se usado a ressonância nuclear magnética funcional do crânio para avaliar pacientes com fibromialgia. A resposta aos estímulos dolorosos é amplificada nos pacientes com fibromialgia (Figura 2).

Figura 2 – Ressonância nuclear magnética funcional do crânio de pacientes com e sem fibromialgia.
Figura 2 – Ressonância nuclear magnética funcional do crânio de pacientes com e sem fibromialgia.

A fibromialgia é uma doença de alta morbidade e baixa mortalidade. Isto significa que causa um grande impacto na qualidade de vida e funcionalidade do paciente, mas sem risco iminente de morte. É uma doença crônica e ainda não tem cura. Precisa de acompanhamento e tratamento permanentes e, frequentemente, está associada à depressão.

Tratamento

O tratamento medicamentoso é imprescindível, pela necessidade de diminuir a resposta do sistema nervoso central aos estímulos dolorosos. Muitos medicamentos podem ser usados, destacando-se os antidepressivos, como primeira escolha na abordagem do paciente, mas neurolépticos, ansiolíticos e analgésicos também podem ser necessários. Estes medicamentos são usados para diminuir as dores, por sua atuação no sistema nervoso central.

As escolhas e respostas aos medicamentos são individuais e há necessidade de um acompanhamento médico próximo para se fazer a melhor escolha de medicamentos.

O uso de calor, frio ou correntes elétricas ou outros recursos analgésicos de fisioterapia são adjuvantes no tratamento da dor e podem ser usados, após orientação, em regime domiciliar.

Alguns exercícios domiciliares para flexibilidade e controle motor podem ser feitos, pois ajudam a diminuir a intensidade da dor (Figura 3).

Figura 3 – Exercícios Domiciliares na Fibromialgia.
Figura 3 – Exercícios Domiciliares na Fibromialgia.

Além dos medicamentos e fisioterapia analgésica, exercícios de média intensidade devem ser parte integrante no tratamento da fibromialgia, pois ajudam a estimular o sistema de supressão de dor. Exercícios aeróbios e exercícios resistidos podem ser indicados, mas sempre com cuidados na intensidade. Hidroterapia pode ser útil no início do programa de treinamento

A dor muscular, frequente no início de um programa de exercícios em pessoas inativas ou sedentárias, pode ser mais intensa nos pacientes com fibromialgia. O uso de analgésicos na fase inicial do treinamento com informação e aconselhamento é fundamental na adesão do paciente com fibromialgia ao programa de exercícios e melhores resultados.

Técnicas de relaxamento e de meditação podem ser úteis no manejo da dor e ansiedade, assim como a psicoterapia ajuda no enfrentamento da doença.

Ainda em fases iniciais de aplicação e uso, mas com resultados promissores, a as técnicas de estimulação cerebral podem ajudar modulação do sistema nervoso, aumentando as atividades de inibição da dor.

Ainda que não se tenha a solução definitiva para a fibromialgia, entender o processo fisiopatológico da doença e conhecer um pouco dos fatores de melhora e piora do quadro, ajudam a lidar melhor com doença.

Algumas sugestões mostrando as melhores práticas para convivência com a fibromialgia:

Figura 4. Melhores práticas para convivência com a fibromialgia.
Figura 4. Melhores práticas para convivência com a fibromialgia.

Conhecer melhor a doença ajuda na percepção do melhor tratamento para cada caso.


Júlia Maria D'Andréa GreveBlog mantido por Júlia Maria D’Andréa Greve, Professora Associada da Faculdade de Medicina da USP e Diretora do Instituto Viva Saúde & Fitness. Você pode segui-la no Twitter. Se preferir, cadastre abaixo o seu endereço de e-mail para ser avisado das novidades.