"Meneghetti gostava da vida boa e toda a fortuna que angariava com o roubo de joias era aplicada nos cassinos, seu vício era o bacará, nos cabarés e em restaurantes caros"

Um dos personagens mais fascinantes da história de São Paulo é o ladrão Gino Amleto Meneghetti, um italiano nascido em Pisa, em 1878, que se mudou para o Brasil ainda moço, fugindo da justiça italiana.

Meneghetti não se considerava ladrão, e sempre quando se deparava com delegados e juízes citava o filósofo anarquista Pierre-Joseph Proudhon, para justificar suas incursões ao patrimônio alheio “Toda propriedade é um roubo”. Abominava a violência e, embora andasse armado, não consta que tenha dado um único tiro em alguém e, em regra, dedicava-se a roubar joias e relógios, bens que considerava supérfluos pois, em seu entendimento somente serviam para “alimentar a vaidade dos ricos”.

Em meados da década de 1920, Meneghetti já era conhecido em toda a capital paulista por seus roubos cinematográficos e suas fugas impossíveis. Pulando sobre os telhados ou rastejando pelas tubulações de esgoto, sempre dava um jeito de escapar ao cerco policial. Gentil com as mulheres e bem trajado (terno, gravata e chapéu), circulava em qualquer ambiente sem levantar suspeitas. Ousado, deixava um cartão de visita com seu nome em lugar visível, na residência ou comércio de sua vítima, para que não houvesse dúvida de que ele era o autor da “expropriação”.

Meneghetti foi preso algumas vezes no início dos anos 20, mas conseguira fugir de todos os presídios por onde passou. Sua primeira fuga foi uma das mais mirabolantes: depois de ser pego tentando cavar um túnel com os companheiros de cela, foi posto em isolamento dentro de um poço estreito e profundo coberto com uma grade de ferro. Durante a madrugada, aproveitando um vacilo da guarda, Meneghetti escalou as paredes do poço e arrancou as grades, depois arrastou-se pela escuridão do pátio, sem ser visto pelo sentinela, livrou-se das roupas e nu mergulhou no rio Tamanduateí. Só quando amanheceu descobriram que Meneghetti havia fugido.

Durante anos a polícia esteve à sua procura. E durante anos ele burlou os investigadores, chegando ao ponto de comparecer, sem o bigode que lhe definia o rosto, numa entrevista coletiva que o chefe de polícia (cargo equivalente ao de secretário de segurança pública) concedeu à imprensa. Na ocasião, ele afirmou aos jornalistas que iria prender Meneghetti em 48 horas. Mas assim que a entrevista chegou ao fim, Meneghetti entregou um bilhete para um repórter na entrada da delegacia: “Então por que não me prendeu agora? Eu era aquele rapaz de chapéu e roupa clara, sentado à sua esquerda”.

No dia seguinte, os jornais publicaram que Meneghetti esteve presente o tempo todo na coletiva, sentado quase ao lado do chefe de polícia – que saiu do episódio completamente desmoralizado.

Prender Meneghetti passou a ser, mais do que nunca, questão de honra para o Chefe de Polícia Roberto Moreira. Em 1926, após semanas de campana em frente à residência onde morava Concetta, mulher de Meneghetti, a polícia deu voz de prisão assim que este apareceu para visitá-la. Como o larápio conseguiu entrar e trancar a porta, teve início um cerco policial que durou dez horas e mobilizou um aparato militar de mais de 200 homens.

Uma multidão acompanhou a operação do lado de fora. Quando esgotaram-se todas as possibilidades de fuga, Meneghetti jogou a arma ao chão e saiu com as mãos levantadas..

Os jornais da época relatam que a polícia evitou que Meneghetti fosse linchado pela população. A versão de Meneghetti, porém, é um pouco diferente: segundo ele, a massa estava enfurecida era com a polícia, que precisou sair às pressas do local para impedir que o ladrão fosse resgatado pelos populares.

Meneghetti chegou à delegacia com o rosto desfigurado pelas coronhadas que tomou dentro do carro. Para piorar sua situação, o delegado Waldemar Dória morreu durante o cerco, atingido por dois tiros nas costas. Embora o calibre das balas retiradas do corpo fosse o mesmo usado pela polícia, Roberto Moreira atribuiu a morte a Meneghetti, que passou por inúmeras sessões de tortura, inclusive com pau-de-arara e choque elétrico, para confessar um crime que não havia cometido. Como suportasse de modo estoico o suplício, sem ceder aos verdugos, jogaram-no numa solitária, onde ficou incomunicável e sem banho de sol por longos 15 anos.

Cumprida a pena, saiu da prisão em 1944. Livre, arriscou a sorte em cidades do Sul do Brasil praticando roubos a joalherias e casas de câmbio em cidades como Curitiba, Ponta Grossa, Porto Alegre e Florianópolis. Retornou a São Paulo após uma longa temporada e tentou trabalhar honestamente no comércio ou fazendo pequenos bicos. No entanto, o que ganhava era muito pouco.

Inconformado com a condição precária imposta pelo trabalho, voltou a roubar. Gostava da vida boa e toda a fortuna que angariava com o roubo de joias era aplicada nos cassinos (seu vício era o bacará), nos cabarés e em restaurantes caros. O que sobrava ele dava aos pobres. Alternava períodos de grande fartura com outros de dura carestia. Ele se via e aos pobres como vítimas de um sistema de exploração no qual somente os “verdadeiros ladrões” podiam gozar dos prazeres terrenos.

Foi preso de novo algumas vezes, fugiu outras tantas e, por fim, caiu novamente numa penitenciária de onde não havia como sair. Voltou às ruas somente em 1959, graças aos esforços do advogado Paulo José da Costa Jr., um dos poucos amigos de sua confiança. Envelhecido e sem a agilidade de antes, recolheu-se até que seu nome não passasse de uma velha lembrança perdida na noite dos tempos. Todos julgavam que Meneghetti estava morto ou havia voltado para a Itália.

Em 1970, porém, aos 92 anos de idade, foi preso pela última vez tentando arrombar a porta de um palacete na rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena. Trazia nas mãos o velho pé de cabra, fiel companheiro de trabalho, que já não operava como antes. Morreu em 1976, pobre e solitário como sempre foi.

Atendendo ao seu último desejo, seu amigo e advogado tratou de cuidar da cremação de seu corpo e suas cinzas foram atiradas ao vento, numa rua qualquer de São Paulo. Uma de suas últimas linhas escritas foi justamente sobre a própria morte: “Não tenho nenhuma razão plausível para estar cá nesta terra que me causa nojo. Que o vento espalhe meu pó e que ele se dilua no ar.”

De suas várias entrevistas para a imprensa, é digna de destaque a concedida para o Pasquim, da qual foram extraídas as seguintes frases:

“Havia dentro de mim uma revolta como a de Spartacus. Eu era um escravo do rio Arno. Eu e todos os meus.”

“O comerciante é um ladrão que tem paciência.”

“Mantive minha saúde no cárcere por gentileza de meus admiradores que me levavam frutas, remédios e outras coisas. Creio que devo minha popularidade ao fato de nunca ter assassinado ninguém, não ter cometido crimes sexuais e ter ajudado os pobres.”

“Não me arrependo de nada porque não fiz nada de errado. Roubei de quem tinha demais e posso garantir que roubei ladrões muito maiores do que eu.”

“Para mim, roubar é uma necessidade quase física.”

“Sou livre. Nasci livre e nunca serei um escravo por convicção.

By Bruno Ribeiro – Jornalista, publicado no Facebook

Organização: Andre Garcia Martin, Arquiteto,Ms. 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

Meneghetti em 1926 (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gino_Meneghetti)Meneghetti em 1970 (fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gino_Meneghetti)

MOUZAR, Benedito – “Meneghetti — O Gato dos Telhados”.

Editora Boitempo, 2010.

JOSÉ DA COSTA JR., Paulo – “O Incrível Meneghetti”,

Editora Jurídica Brasileira, .

MODERNELL, Renato – “O Grande Ladrão: A história de Gino Meneghetti”.

Editora Sulina, 1990.

CAMACHO, M. A. – “Memórias” — Vida de Meneghetti”,

Editora Cleópatra, 1960.