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Trump, o Brasil e a Ilusão dos Aliados

quinta-feira, janeiro 8, 2026

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Quando a política externa deixa de ser ideológica e passa a ser apenas negócio

Há movimentos na política internacional que não se anunciam com discursos, mas com silêncios cuidadosamente calculados. Decisões que parecem técnicas, quase administrativas, mas que, observadas com atenção, revelam deslocamentos profundos de método e poder. A recente mudança de postura da administração de Donald Trump em relação ao Brasil pertence a essa categoria. Não é episódica. Não é improvisada. É reveladora.

Durante meses, parte do debate público brasileiro projetou sobre Trump uma expectativa ideológica que nunca existiu. Supôs-se que afinidades políticas, valores conservadores ou alinhamentos retóricos explicariam seus gestos. Essa leitura falha porque parte de uma premissa equivocada. Trump não opera prioritariamente no campo das ideias, mas no das transações. Seu olhar sobre o mundo não é movido por afinidades morais, mas por cálculo imediato de ganhos, perdas e alavancas disponíveis.

Essa chave interpretativa, apresentada com rara clareza por Heni Ozi Cukier, conhecido como Professor HOC, cientista político, escritor, professor e palestrante brasileiro, ajuda a compreender por que a política externa americana sob Trump parece errática aos desavisados, mas mantém coerência interna. O fio condutor não é ideológico. É pragmático, quase mercantil. Cada país, cada crise, cada sanção ou concessão é tratada como peça de um balcão global de negociações.

O Brasil entrou nesse balcão não como aliado estratégico nem como parceiro civilizacional, mas como ativo negociável. Recursos naturais estratégicos, posição regional, peso diplomático no Sul Global e capacidade de influenciar blocos multilaterais passaram a ser vistos como instrumentos de troca. Quando esses ativos servem à equação americana, a relação se aquece. Quando deixam de servir, esfria sem constrangimento nem explicações morais.

É nesse contexto que se deve compreender o recuo em medidas antes celebradas como símbolos de alinhamento político. Não houve conversão, tampouco traição. Houve apenas reavaliação de custo-benefício. Para Trump, princípios não são âncoras. São ferramentas retóricas. Usam-se quando rendem dividendos. Abandonam-se quando passam a custar caro.

Esse movimento é confirmado por leituras internacionais consistentes. O Council on Foreign Relations descreve a política trumpista como uma ruptura clara com o internacionalismo liberal do pós-guerra e uma adesão explícita ao realismo transacional. A revista Foreign Affairs observa que alianças históricas passaram a ser tratadas como contratos temporários, sujeitos a renegociação permanente. Já o Financial Times aponta que a noção de valores compartilhados cedeu lugar a uma diplomacia de pressão direta, baseada em tarifas, sanções seletivas e concessões pontuais.

Nesse cenário, o Brasil enfrenta um desafio delicado. Internamente, vive um ano eleitoral marcado por polarização extrema, fragilidade institucional e disputas narrativas que frequentemente substituem a análise pelos slogans. Externamente, lida com um interlocutor que não se move por afinidade política, nem por simpatia ideológica. Move-se por vantagem.

A tentação de interpretar gestos externos como apoio a este ou àquele campo político é compreensível, mas perigosa. Cria ilusões, alimenta dependências simbólicas e compromete a autonomia analítica. Nenhuma força política brasileira será resgatada por Washington. Nenhuma crise institucional será resolvida por pressão externa. O que existe é interesse. E interesse muda.

Isso não significa resignação, tampouco submissão. Significa lucidez. Países que compreendem a lógica transacional negociam melhor, protegem seus interesses e evitam armadilhas narrativas. Países que confundem discurso com compromisso tornam-se peças descartáveis no tabuleiro.

O momento exige menos paixão e mais leitura fria dos fatos. A política internacional não é espaço de redenções, mas de estratégias. Trump não é um salvador nem uma entidade ideológica. É um operador. E operadores respeitam apenas aquilo que gera retorno.

Para o Brasil, o ano que se inicia pede maturidade estratégica. Entender o jogo é condição para não ser jogado. Reconhecer que, no tabuleiro atual, valores só têm peso quando sustentados por poder, coesão interna e estratégia clara. O resto é retórica. E retórica, como a história insiste em ensinar, não garante soberania.

Trump, Brazil, and the Illusion of Alliances

International Edition – Two Flags Post

Brazil enters a decisive electoral year amid deep polarization, institutional tension, and a noisy political debate often driven more by narrative than by strategy. At the same time, it faces a United States once again led by Donald Trump, a president widely misunderstood abroad and, perhaps more dangerously, misread at home.

Trump’s foreign policy is not ideological. It is transactional. Countries are not allies in a moral sense, but assets to be leveraged. Principles are not commitments, but rhetorical tools deployed when useful and discarded when costly. Brazil’s recent experience with Washington illustrates this logic with unusual clarity.

What many in Brazil interpreted as political alignment or shared values was, in fact, tactical positioning. When Brazil offered strategic value, interest followed. When the balance shifted, so did policy. No betrayal occurred. Only recalculation.

International observers have noted this pattern consistently. Institutions like the Council on Foreign Relations and publications such as Foreign Affairs and the Financial Times describe Trump’s diplomacy as a break from value-based alliances toward a model built on pressure, bargaining, and short-term gains.

For Brazil, the lesson is clear. External powers will not solve domestic disputes or safeguard democratic balance. Expecting ideological rescue from abroad is not strategy. It is illusion.

In a world increasingly governed by transactional power, sovereignty depends less on rhetoric and more on internal cohesion, strategic clarity, and the ability to negotiate without fantasy. Understanding the game is the first step toward not becoming a pawn.

José Roberto Souza Dias, PhD
José Roberto Souza Dias, PhDhttp://twoflagspost.com
Co-Fundador, editor e editor-chefe do Two Flags Post Jornalista, Mtb 0083569/SP/BR, Mestre em História Econômica e Doutor em Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis - Cesusc, Conselheiro do Movimento Nacional de Educação no Trânsito - MONATRAN, /// Founder, editor, and editor-in-chief of the Two Flags Post Journalist, Mtb 0083569/SP/BR, Master's in Economic History, and Doctorate in Humanities from the University of São Paulo, Honoris Causa Doctorate from the Faculty of Social Sciences of Florianópolis - Cesusc, Advisor to the National Movement for Traffic Education - MONATRAN.

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