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O BRASIL DIANTE DE SI MESMO

segunda-feira, setembro 14, 2026

15 de setembro, Dia Internacional da Democracia: um chamado aos brasileiros. O futuro ainda não está escrito.

Há momentos em que um país precisa ter coragem de olhar para si mesmo. O Brasil chegou a um desses momentos. Às vésperas de eleições gerais, atravessamos uma grave crise institucional, assistimos ao desgaste da confiança pública e vemos crescer uma guerra entre Poderes, grupos políticos e interesses que ameaça ocupar todo o espaço da vida nacional. Não é preciso exagerar, escolher previamente culpados ou transformar adversários em inimigos. É preciso olhar os fatos.

É justamente em épocas de expectativa exacerbada que se torna particularmente interessante observar o trabalho de duas profissões que têm por ofício investigar e interpretar esses fatos. O jornalista procura compreender o presente sem perder de vista aquilo que o antecedeu. O historiador percorre o caminho inverso: estuda o passado para compreender o presente e, na medida do possível, perceber os sinais do futuro. Exerço há muitos anos esses dois ofícios e talvez por isso olhe para o momento brasileiro menos com medo do que com preocupação.

A História ensina que democracias raramente desaparecem de um dia para o outro. Elas se enfraquecem aos poucos, quando se perdem limites, relativizam-se princípios e justificam-se excessos porque foram cometidos contra aqueles de quem não gostamos. Depois outros excessos aparecem, praticados pelo lado oposto, e encontram a mesma justificativa. Quando finalmente se percebe o que aconteceu, aquilo que deveria ser excepcional tornou-se normal. É justamente aí que mora o perigo.

Não me interessa saber de que lado partiria um eventual golpe contra a ordem democrática. Interessa-me afirmar que nenhum golpe pode ser aceito, nem de esquerda, nem de direita, nem praticado nas ruas, nem concebido nos gabinetes, nem realizado por civis, militares, governos, parlamentos ou tribunais. A Constituição não pertence a um partido, a um presidente, a um ministro ou a uma corrente ideológica. Pertence à Nação. Também não podemos aceitar que a defesa da democracia seja utilizada como justificativa para diminuir a própria democracia. Liberdade de expressão, liberdade de imprensa, direito de crítica, devido processo legal, ampla defesa, separação dos Poderes, transparência e responsabilidade das autoridades não são concessões feitas aos cidadãos. São fundamentos de uma sociedade livre.

Há, porém, outra realidade brasileira que não pode continuar escondida atrás da crise política. Enquanto Brasília discute Brasília, milhões de brasileiros discutem como chegar ao fim do mês. A pobreza, a insegurança, a saúde pública, a educação, a violência e a tragédia cotidiana do trânsito continuam presentes. Famílias perdem seus entes queridos nas ruas e rodovias, trabalhadores enfrentam horas de deslocamento, crianças esperam uma escola melhor, pacientes esperam atendimento e o crime organizado ocupa espaços onde o Estado deveria estar presente. Esses brasileiros não podem ser figurantes numa eleição dominada exclusivamente pela disputa entre poderosos.

As eleições de 2026 precisam devolver o Brasil ao brasileiro. É preciso perguntar aos candidatos não apenas contra quem estão, mas a favor de quê. Qual é o projeto para a saúde, para a educação, para a segurança pública, para o trânsito e a mobilidade, para o emprego, para a redução da pobreza e para o desenvolvimento econômico? Como pretendem devolver credibilidade às instituições? E, sobretudo, quais limites estarão dispostos a respeitar quando chegarem ao poder? O Brasil que sairá das urnas não pode continuar discutindo apenas as batalhas do passado enquanto os problemas do presente aguardam soluções.

Nesta terça-feira, 15 de setembro, celebra-se o Dia Internacional da Democracia, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU). Talvez poucas vezes essa data tenha encontrado o Brasil diante de uma responsabilidade tão concreta. Que seja um dia para dizer basta à corrupção, venha de onde vier; ao abuso de poder, seja praticado por quem for; à censura, à perseguição política, à violência e à tentativa de transformar brasileiros que pensam diferente em inimigos irreconciliáveis. Mas que ninguém confunda esse basta com um chamado à ruptura. É exatamente o contrário.

É um chamado à Constituição, às instituições, à independência entre os Poderes, à liberdade de imprensa, ao voto livre e à soberania popular. Um chamado para que qualquer denúncia seja investigada, qualquer acusado tenha direito de defesa e qualquer culpado, independentemente do cargo, partido, fortuna ou influência, responda perante a lei. Democracia não pode significar apenas o respeito às regras quando elas favorecem aqueles com quem concordamos. Seu verdadeiro teste começa quando essas mesmas garantias precisam proteger quem pensa de maneira diferente.

Há algo novo e profundamente importante acontecendo. A sociedade brasileira está atenta. As redes sociais romperam antigos monopólios de informação e ampliaram extraordinariamente a capacidade de fiscalização dos cidadãos. A própria imprensa tradicional demonstra crescente preocupação com os limites institucionais e com a necessidade de transparência. Isso é saudável quando acompanhado de responsabilidade, apuração e respeito aos fatos, porque liberdade sem responsabilidade pode produzir injustiças, assim como responsabilidade invocada para restringir a liberdade pode produzir autoritarismo.

Não precisamos de heróis, muito menos de salvadores da Pátria; precisamos de cidadãos. A democracia brasileira não será salva por um homem, um partido, um tribunal, um jornal ou uma manifestação. Será preservada quando milhões de brasileiros compreenderem que seus direitos somente estarão seguros enquanto também estiverem seguros os direitos daqueles que pensam de maneira diferente. Talvez seja essa a principal lição que jornalista e historiador conseguem enxergar quando observam juntos este momento: o passado nos adverte, o presente nos desafia, mas o futuro ainda não está escrito e é justamente aí que mora a esperança.

José Roberto de Souza Dias, Ph.D.
Jornalista e Historiador

BRAZIL FACES ITSELF

September 15, International Day of Democracy: a message from Brazil. The future has not yet been written.

There are moments when a nation must find the courage to look at itself. Brazil has reached one of those moments. With general elections approaching, the country is experiencing a serious institutional crisis, declining public confidence and an increasingly bitter struggle among branches of government, political forces and competing interests. For an American reader, some of this may sound familiar. The United States has also endured periods of profound polarization and distrust. Yet the central democratic question remains the same on both sides of the hemisphere: can political disagreement remain within constitutional boundaries?

I have spent much of my life working in two professions that approach this question from different directions. The journalist investigates the present while keeping an eye on what came before; the historian studies the past to understand the present and, whenever possible, recognize the signs of what may come next. History offers a sobering lesson. Democracies do not always disappear in a single dramatic event. They can weaken gradually, as limits are ignored, exceptional measures become routine and abuses are tolerated because they are directed against people we oppose. Eventually, what once seemed unacceptable begins to look normal.

This is why Brazil must reject any attempt to break the democratic order, regardless of where it comes from. Democracy cannot depend on whether those exercising power happen to share our political preferences. The Brazilian Constitution, like the American constitutional tradition, rests on the principle that power must have limits. The United States built its system around checks and balances precisely because its founders understood that liberty could not safely depend on the virtue of any single leader or institution. Brazil needs the same principle to operate fully: an independent Congress, an independent judiciary, an accountable Executive and institutions strong enough to restrain one another without attempting to dominate one another.

Freedom of expression and freedom of the press are equally essential. Americans recognize these protections most clearly through the First Amendment. Brazil has its own constitutional guarantees, and they must be defended with the same seriousness. So must due process, the right to a defense and equality before the law. Democracy cannot mean protecting these principles only when they benefit people with whom we agree. Their real value becomes clear when they protect those whose opinions we strongly oppose.

Yet Brazil cannot allow its institutional conflict to consume the entire national debate. While Brasília debates Brasília, millions of Brazilians are concerned with far more immediate questions: employment, poverty, public health, education, violent crime, transportation and the continuing human tragedy on our streets and highways. The 2026 election must therefore ask candidates not only whom they oppose, but what they propose to build. A democracy proves its value not merely by holding elections, but by improving the lives of the citizens who give it legitimacy.

September 15 is the International Day of Democracy, proclaimed by the United Nations General Assembly. This year, the date carries particular meaning for Brazil. It should be an opportunity to reject corruption wherever it exists, abuses of power whoever commits them, censorship, political persecution, violence and the dangerous habit of treating fellow citizens as enemies simply because they think differently. But this must never become an invitation to rupture. It must be a call back to the Constitution, the separation of powers, a free press, free elections, due process and popular sovereignty.

Brazilian society is watching more closely than before. Social media has greatly expanded the ability of ordinary citizens to question authorities and challenge traditional centers of information, while established journalism is once again being tested by the responsibility to investigate power without becoming an instrument of political factions. Freedom requires responsibility, but responsibility must never become a pretext for suppressing freedom.

Brazil does not need another savior. It needs citizens and institutions strong enough to survive presidents, parties, judges, elections and political passions. The United States learned long ago that its constitutional experiment depends not upon perfect leaders but upon durable rules and a society willing to defend them. Brazil now faces its own test. The past warns us and the present challenges us, but neither has the right to dictate what comes next.

The future has not yet been written. And that is precisely where hope begins.

José Roberto de Souza Dias, Ph.D.
Journalist and Historian

 

José Roberto Souza Dias, PhD
José Roberto Souza Dias, PhDhttp://twoflagspost.com
Co-Fundador, editor e editor-chefe do Two Flags Post Jornalista, Mtb 0083569/SP/BR, Mestre em História Econômica e Doutor em Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis - Cesusc, Conselheiro do Movimento Nacional de Educação no Trânsito - MONATRAN, /// Founder, editor, and editor-in-chief of the Two Flags Post Journalist, Mtb 0083569/SP/BR, Master's in Economic History, and Doctorate in Humanities from the University of São Paulo, Honoris Causa Doctorate from the Faculty of Social Sciences of Florianópolis - Cesusc, Advisor to the National Movement for Traffic Education - MONATRAN.

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