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A verdadeira reserva da longevidade

segunda-feira, fevereiro 9, 2026

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Força é Vida

Há algum tempo se espalhou a ideia de que envelhecer bem é sinônimo de ter músculos grandes. Fotos nas redes sociais, médicos celebridades, livros de capa chamativa. A médica Gabrielle Lyon popularizou a expressão de que o músculo seria o “órgão da longevidade”. O também médico Peter Attia, autor de Outlive: The Science and Art of Longevity, afirma que os músculos são a nossa mais importante conta de aposentadoria.

A imagem é sedutora. Mas ela precisa ser bem compreendida, especialmente por nós, que já passamos dos 60, dos 70, e sabemos que a vida real não cabe em slogans.

Em matéria recente, o jornal O Estado de S. Paulo abordou um ponto essencial: para a longevidade, mais importante do que o tamanho do músculo é a força que ele é capaz de produzir. Ou seja, não se trata de volume, mas de capacidade funcional. Não é o bíceps que impressiona no espelho que nos mantém independentes, é a habilidade de levantar, empurrar, reagir, sustentar o próprio corpo.

O professor Michael Ormsbee, da Florida State University, lembra que força é a capacidade de mover coisas pesadas. Potência é fazer isso com rapidez. E aqui está um detalhe decisivo para quem envelhece: ao longo dos anos perdemos principalmente as fibras musculares de contração rápida, aquelas que nos permitem reagir a um tropeço, evitar uma queda, recuperar o equilíbrio ao pisar em falso.

A professora Abbie Smith-Ryan, da Universidade da Carolina do Norte, chama atenção para o treino de potência. Não é algo restrito a atletas. É o que nos permite colocar o pé no chão a tempo quando a calçada é irregular. É o que nos salva de uma fratura de fêmur, tantas vezes início de um declínio difícil de reverter.

O professor Donald Dengel, da Universidade de Minnesota, aponta um sinal de alerta muito simples: quando começamos a adaptar a casa à nossa fraqueza. Quando baixamos as panelas porque ficou difícil alcançá-las. Quando evitamos subir escadas carregando compras. Quando pedimos ajuda para tarefas que antes eram naturais. Cada vez que deixamos de usar um grupo muscular, ele enfraquece um pouco mais.

A ciência contemporânea confirma isso. A sarcopenia, perda progressiva de massa e força muscular associada ao envelhecimento, está diretamente ligada a maior risco de quedas, hospitalizações, perda de autonomia e até mortalidade. Diversos estudos publicados em periódicos internacionais, como o Journal of Gerontology e o The Lancet Healthy Longevity, mostram que força de preensão manual, por exemplo, é um dos marcadores mais simples e confiáveis de risco de eventos adversos em idosos.

Não estamos falando de vaidade. Estamos falando de independência.

Para nossos leitores da terceira idade, a pergunta central não é quantos quilos levantam no supino. A pergunta é esta: consigo levantar de uma cadeira sem usar as mãos? Consigo subir um lance de escadas carregando um cesto de roupas? Consigo sustentar uma sacola de supermercado sem que a mão trema ou doa? Consigo reagir rapidamente se tropeçar?

Há testes simples. O teste de sentar e levantar da cadeira, feito em casa, é excelente indicador de potência das pernas. A capacidade de carregar halteres moderados por alguns metros avalia a força de preensão. Flexões adaptadas na parede ou na bancada da cozinha ajudam a medir a força da parte superior do corpo.

E como treinar?

Primeiro, com regularidade. Duas a três sessões semanais já produzem efeitos relevantes. Vinte minutos bem feitos são suficientes.

Segundo, com progressão. Pesos muito leves têm seu valor no início, mas a força funcional melhora quando desafiamos o músculo com cargas que exijam esforço real, sem chegar ao limite extremo. A recomendação de especialistas é trabalhar com cerca de 70% a 75% do esforço máximo, em séries curtas de três a seis repetições, sempre com técnica correta.

Terceiro, com movimentos que imitem a vida. Levantar algo do chão, empurrar, puxar, subir degraus, fazer avanços com uma perna, elevar um objeto até uma prateleira alta. Um galão de água pode substituir o halter. Uma mochila com livros pode servir de carga inicial. O importante é o gesto funcional.

Quarto, com atenção à velocidade. Não basta apenas levantar o peso. É preciso, com segurança, aprender a levantá-lo com alguma rapidez controlada. Essa capacidade de gerar força rapidamente é o que protege contra quedas.

Nada disso dispensa orientação médica, especialmente para quem tem cardiopatias, osteoporose avançada ou problemas articulares importantes. Mas, salvo contraindicações específicas, o treino de força é hoje considerado uma das intervenções mais eficazes para envelhecer com qualidade.

A Organização Mundial da Saúde recomenda exercícios de fortalecimento muscular pelo menos duas vezes por semana para pessoas acima de 65 anos. Não é uma moda. É uma diretriz de saúde pública.

Para nós, que já acumulamos décadas de experiência e sabemos que o tempo é bem precioso, a mensagem é simples e direta. Não precisamos parecer jovens. Precisamos permanecer capazes.

Força não é estética. É autonomia. É dignidade. É a possibilidade de continuar abrindo a própria porta, carregando o próprio livro, abraçando um neto no colo, caminhando sem medo.

Se músculos são uma conta de aposentadoria, como diz Peter Attia, então a força é o rendimento mensal que ela nos paga. E essa renda se constrói aos poucos, com disciplina, prudência e constância.

Cuidar da força é cuidar da liberdade. E liberdade, como bem sabemos, não tem idade.

Strength Is Life: Your True Retirement Account

We are often told that aging well means building bigger muscles. Influential voices like Dr. Gabrielle Lyon call muscle “the organ of longevity,” and Dr. Peter Attia, author of Outlive: The Science and Art of Longevity, describes it as our most important retirement account.

The message is compelling, but it needs clarity. For healthy aging, muscle size matters far less than muscle strength. What counts is not how impressive a muscle looks, but what it can do. Strength is function. It is the ability to lift, carry, stabilize, and react.

As we age, we lose fast-twitch muscle fibers, the ones responsible for quick reactions. That loss affects balance and increases the risk of falls. Exercise physiologists such as Michael Ormsbee and Abbie Smith-Ryan emphasize that power, the ability to apply force quickly, is essential not only for athletes but for everyday life. A fast, controlled step can prevent a fall. A strong grip can preserve independence.

Donald Dengel offers a simple warning sign: when we begin adjusting our homes to accommodate weakness. Lowering shelves. Avoiding stairs. Asking for help with tasks we once handled easily. Each avoided effort accelerates decline.

Research consistently shows that sarcopenia, age-related loss of muscle and strength, is linked to higher risks of falls, hospitalization, and loss of independence. Even grip strength has been shown in major medical journals to predict long-term health outcomes.

This is not about appearance. It is about autonomy.

The real questions are practical. Can you stand up from a chair without using your hands? Carry groceries comfortably? Climb stairs with confidence? Recover your balance if you stumble?

The solution is neither extreme nor complicated. Train two to three times per week. Twenty focused minutes are enough. Use loads that challenge you safely, roughly 70 to 75 percent of your maximum effort, in short sets with proper form. Practice movements that mirror daily life: lifting from the floor, stepping up, reaching overhead, carrying weight at your side. Add controlled speed to preserve reaction time.

The World Health Organization recommends muscle-strengthening activities at least twice a week for adults over 65. This is not a trend. It is sound public health guidance.

We do not need to look younger. We need to remain capable.

If muscle is a retirement account, strength is the income it pays. It sustains independence, dignity, and freedom. And freedom, at any age, is worth protecting.

 

José Roberto Souza Dias, PhD
José Roberto Souza Dias, PhDhttp://twoflagspost.com
Co-Fundador, editor e editor-chefe do Two Flags Post Jornalista, Mtb 0083569/SP/BR, Mestre em História Econômica e Doutor em Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis - Cesusc, Conselheiro do Movimento Nacional de Educação no Trânsito - MONATRAN, /// Founder, editor, and editor-in-chief of the Two Flags Post Journalist, Mtb 0083569/SP/BR, Master's in Economic History, and Doctorate in Humanities from the University of São Paulo, Honoris Causa Doctorate from the Faculty of Social Sciences of Florianópolis - Cesusc, Advisor to the National Movement for Traffic Education - MONATRAN.

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