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Depois dos 60, quem decide: você ou o tempo?

quinta-feira, janeiro 8, 2026

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Há palavras que vão ficando pequenas demais para as pessoas que pretendem nomear. “Idoso” é uma delas. Não é ofensa, é inadequação. A palavra ficou presa a um tempo em que passar dos 60 significava recolher-se, diminuir o passo, aceitar com gratidão um lugar discreto à margem da vida ativa. Esse tempo passou. O problema é que o vocabulário de muitos ainda não percebeu.

Eu não me reconheço nesse enquadramento. E sei que não estou só.

Cheguei a essa idade não para desligar motores, mas para escolher melhor os caminhos. Depois de uma vida inteira lidando com ideias, projetos, riscos, erros e recomeços, não faz sentido aceitar que agora tudo se resuma a descansar. Descansar do quê. Da curiosidade. Do pensamento. Do desejo de compreender melhor o mundo. Isso não é descanso. É desistência disfarçada.

Foi por isso que a expressão que me chegou, trazida por meu filho em uma conversa despretensiosa, teve efeito imediato e profundo. Não como curiosidade linguística, mas como revelação. NOLT. New Older Living Trend. A palavra não soou como sigla elegante nem como rótulo de ocasião, mas como a descrição precisa de algo que eu já vivia sem nomear. Um fenômeno real, em curso, feito de pessoas que passaram dos 60 e seguem inteiras, atentas, em movimento. Gente que não nega a idade, mas também não aceita que ela se transforme em pretexto para encolher.

O NOLT não faz cena de juventude tardia. Faz algo mais difícil. Vive com consciência. Sabe o que perdeu, o que ganhou, o que ficou pelo caminho. Justamente por isso, decide com mais rigor. Escolhe melhor as batalhas, os projetos, as companhias. O tempo deixa de ser adversário e passa a ser matéria-prima. Cada dia vale mais porque se sabe que ele não é infinito. E isso não paralisa. Afia.

Vejo isso todos os dias. Pessoas que voltam a estudar não para provar nada a ninguém, mas para organizar ideias. Que aprendem tecnologia porque não aceitam a dependência como destino. Que fazem cursos, exploram temas novos, revisitam antigos interesses com outro olhar. Alguns mudam de carreira quando muitos já estão colecionando desculpas. Outros empreendem sem alarde, com a serenidade de quem já sabe onde pisa. E há ainda os que fazem o trabalho mais silencioso e mais exigente. Reformam a própria vida por dentro.

Cuidam do corpo porque entendem que ele é instrumento, não ornamento. Cuidam da mente porque sabem que pensamento frouxo envelhece rápido. Cuidam do espírito sem espetáculo, como quem sustenta um eixo interno. Não vivem de passado, mas também não se iludem com o futuro. Vivem o presente com densidade.

O mundo, no entanto, insiste em tratar essa fase como uma despedida educada. Um “agora é sua vez de descansar”, dito com boas intenções e péssimas consequências. O NOLT recusa esse roteiro. Não entra em modo de espera. Não aceita virar espectador da própria história. Continua lendo, escrevendo, caminhando, participando, ensinando e aprendendo. Não atravessa os anos em silêncio. Dá conteúdo a eles.

Há algo que separa claramente quem apenas soma aniversários de quem realmente amadurece. Não é a ausência de limitações. É a forma de lidar com elas. Transformar limites em álibi é fácil. Transformá-los em critério é outra coisa. O sofá, todos sabemos, é confortável. Também sabemos o preço. Primeiro rouba o ritmo, depois a vontade, por fim o sentido. A zona de conforto é educada, macia e profundamente corrosiva.

Quando ouço NOLT, não penso em moda, nem em marketing. Penso em atitude. Penso numa escolha silenciosa, feita todos os dias. Continuar inteiro ou ir se reduzindo aos poucos. Aceitar a identidade que oferecem ou assumir aquela que faz sentido. Encerrar capítulos ou escrever os mais verdadeiros.

Depois dos 60, nada disso acontece por acaso. Ou a pessoa decide viver com intenção, ou o tempo decide por ela.

Eu já fiz a minha escolha. Não por heroísmo, mas por lucidez. E escrevo estas linhas como alguém que não pretende sair de cena antes da hora. Se você leu até aqui, talvez já saiba que também não nasceu para o papel de figurante. O resto é decisão.

After 60, who decides: you or time?

Some words grow smaller faster than the people they try to define. “Elderly” is one of them. Not because it lacks respect, but because it belongs to another era. A time when turning 60 meant slowing down, stepping aside, accepting a polite place at the margins of active life. That time is gone. The problem is that much of our language has not caught up.

I do not recognize myself in that frame. And I know I am not alone.

I did not reach this stage of life to shut engines down, but to choose my paths more carefully. After a lifetime dealing with ideas, projects, risks, mistakes, and restarts, it makes little sense to believe that everything now should be reduced to “rest.” Rest from what. From curiosity. From thinking. From the desire to better understand the world. That is not rest. It is resignation disguised as comfort.

That is why a word that reached me, brought by my son during an unpretentious conversation, had an immediate and profound impact. Not as a linguistic curiosity, but as a revelation. NOLT. New Older Living Trend. It did not sound like a fashionable acronym or a marketing label, but like an accurate description of something I was already living without naming. A real phenomenon, already underway, made up of people who have crossed 60 and remain whole, alert, in motion. People who do not deny age, but refuse to let it become an excuse to shrink.

A NOLT does not perform youth. That would be easy. A NOLT does something far more demanding. Lives with awareness. Knows what was lost, what was gained, what was left behind. Precisely for that reason, choices become sharper. Battles are chosen more carefully. Projects gain meaning. Relationships gain weight. Time stops being an enemy and becomes raw material. Each day matters more because it is known not to be endless. And that awareness does not paralyze. It sharpens.

I see this every day. People returning to school not to impress anyone, but to organize their thinking. Learning technology not to look modern, but to avoid dependence. Taking courses, exploring new subjects, revisiting old interests with a different lens. Some change careers when many are collecting excuses. Others start businesses quietly, with the calm of those who know where they stand. And there are those who take on the most demanding work of all, the silent one. They rebuild their lives from the inside out.

They care for the body because they understand it as an instrument, not an ornament. They care for the mind because loose thinking ages quickly. They care for the spirit without spectacle, as one preserves an inner axis. They do not live trapped in the past, nor intimidated by the future. They live the present with substance.

The world, however, still treats this stage as a polite farewell. A well-intentioned “now it’s time to slow down,” delivered with good manners and poor consequences. A NOLT rejects that script. Does not enter waiting mode. Refuses to become a spectator of their own story. Keeps reading, writing, walking, participating, teaching, learning. Does not pass through the years quietly. Gives the years content.

There is a clear line between merely adding birthdays and actually maturing. It is not the absence of limitations that defines the difference. It is how one deals with them. Turning limits into excuses is easy. Turning them into criteria is not. The couch, we all know, is comfortable. We also know the price. First it steals rhythm, then desire, and finally purpose. The comfort zone is polite, soft, and deeply corrosive.

When I hear NOLT, I do not think of trends or marketing. I think of attitude. Of a quiet decision made every day. To remain whole or to slowly reduce oneself. To accept the identity offered or to assume the one that makes sense. To close chapters or to write the most truthful ones.

After 60, none of this happens by chance. Either you choose to live with intention, or time chooses for you.

I have already made my choice. Not out of heroism, but out of clarity. And I write these lines as someone who has no intention of leaving the stage before the moment truly arrives. If you have read this far, you may already know that you were not meant to play a supporting role either. The rest is decision

José Roberto Souza Dias, PhD
José Roberto Souza Dias, PhDhttp://twoflagspost.com
Co-Fundador, editor e editor-chefe do Two Flags Post Jornalista, Mtb 0083569/SP/BR, Mestre em História Econômica e Doutor em Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis - Cesusc, Conselheiro do Movimento Nacional de Educação no Trânsito - MONATRAN, /// Founder, editor, and editor-in-chief of the Two Flags Post Journalist, Mtb 0083569/SP/BR, Master's in Economic History, and Doctorate in Humanities from the University of São Paulo, Honoris Causa Doctorate from the Faculty of Social Sciences of Florianópolis - Cesusc, Advisor to the National Movement for Traffic Education - MONATRAN.

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