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Há heróis que não usam capa, não empunham espada, não têm seu nome gravado em placas ou monumentos. Há heróis silenciosos, quase invisíveis, que caminham entre nós com a simplicidade de quem aprendeu a viver de novo. Um deles é jardineiro. E talvez não exista metáfora mais justa para contar a sua história.
Há 14 anos, ele chegou a um ponto que muitos chamam de fundo do poço, mas que, na verdade, é um limiar. O instante exato em que a vida exige uma decisão sem atalhos. Não foi a ruína espetacular, nem a caricatura do vício que o definiu. Foi a doença do primeiro gole. Aquela que não começa no copo, mas no pensamento. Aquela que promete controle, normalidade, exceção. E nunca cumpre.
Até que, num dia decisivo, ele entrou pela primeira vez em uma reunião do AAA. Entrou sem discursos, sem certezas, sem orgulho. Sentou-se, ouviu relatos que pareciam fragmentos da própria história e, em determinado momento, fez algo que exige uma coragem que poucos reconhecem: ergueu o braço. Um gesto simples para quem observa, mas gigantesco para quem o realiza. Ao levantar aquele braço, ele admitiu o que precisava ser admitido. Confirmou que estava disposto a ingressar no Grupo Força Divina. Ali começou o seu renascimento.
Desde então, não faltou a nenhuma reunião. Não por obrigação, mas por consciência. Aprendeu que a sobriedade não se conquista de uma vez por todas. Ela se constrói um dia de cada vez. Com vigilância, humildade e compromisso. Aprendeu que sobriedade não é apenas ausência de álcool. É presença de lucidez. É responsabilidade com a própria vida. É reconhecer limites e respeitá-los. É pedir ajuda sem vergonha e oferecê-la sem vaidade.
Os princípios universais do AAA não prometem milagres fáceis. Oferecem um caminho possível. Admitir a própria impotência diante do primeiro gole não o diminuiu; libertou-o. Reconhecer uma Força Divina, como cada um a compreende, não o enfraqueceu; devolveu-lhe o eixo. Fazer um inventário honesto da própria vida não foi punição; foi cura. Reparar danos, quando possível, não apagou o passado, mas abriu espaço para um futuro digno. E colocar-se a serviço dos outros não virou discurso; tornou-se consequência natural.
Hoje, além de presença constante, ele é um dos coordenadores do grupo. Não fala como quem ensina, fala como quem partilha. Sua autoridade não vem do cargo, vem da coerência. Sua palavra tem peso porque é sustentada pelo exemplo. Ele sabe, e nunca esquece, que a queda é sempre possível se o caminho for abandonado.
É aí que o jardineiro se revela inteiro. Ele aprendeu que vidas se recuperam como jardins. Não à força. Não com pressa. É preciso remover ervas daninhas, preparar o solo, respeitar o tempo das estações, regar todos os dias. Algumas plantas brotam rápido, outras exigem paciência. Há sol e há geada. Mas quando o cuidado é constante, a vida responde.
Quatorze anos depois daquele braço erguido, ele não celebra apenas a ausência do álcool. Celebra uma vitória sobre si mesmo. Sobre a negação, o orgulho e a ilusão de controle. Celebra uma vida que recuperou sentido, relações que foram reconstruídas, trabalho feito com dignidade, noites dormidas em paz.
Esta homenagem não é apenas para ele. É um convite silencioso a quem ainda sofre, a quem ainda luta, a quem acredita que não há saída. Há. Ela começa com um gesto simples e imenso: admitir, erguer o braço, dar o primeiro passo. O resto não acontece sozinho. Acontece junto.
E por isso, ao celebrar esses 14 anos de renascimento, cabe um agradecimento que nasce do coração e da prática diária. Agradecimento ao Senhor, como cada um O compreende, por mais um dia de sobriedade concedido. Pela serenidade para aceitar as coisas que não podem ser mudadas, pela coragem para mudar aquelas que podem, e pela sabedoria para reconhecer a diferença.
Gratidão pela Força Divina que sustentou quando a vontade falhou, que iluminou quando a mente se confundiu, que amparou quando o cansaço ameaçou vencer. Gratidão pelo grupo, pela irmandade, pelo serviço e pela mão estendida no momento certo.
Que este jardineiro siga, um dia de cada vez, cuidando do próprio jardim e ajudando outros a cuidar do seu. E que nunca lhe falte humildade para lembrar de onde veio, nem fé para continuar confiando Naquele que torna possível o que, sozinho, jamais seria.




