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A Venezuela já não enfrenta apenas uma crise econômica ou política. O que se consolidou ali é algo mais grave: um Estado que deixou de servir ao cidadão e passou a funcionar para proteger um grupo no poder. Esse é o ponto central que precisa ser entendido, sem exageros e sem espetáculos.
Ao longo dos anos, as instituições foram sendo esvaziadas por dentro. O partido governante deixou de disputar poder em condições normais e passou a controlá-lo de forma estrutural. As forças armadas perderam seu papel institucional e se integraram ao sistema político. A separação entre Estado, governo e partido simplesmente desapareceu.
Nesse ambiente surgem os chamados coletivos. Não são movimentos sociais espontâneos. São grupos armados que atuam com tolerância e proteção do poder central. Funcionam como uma força paralela para intimidar, controlar territórios e conter protestos. Quando o Estado perde o monopólio da força, o cidadão perde sua principal garantia.
O impacto na vida cotidiana é imediato. O cidadão deixa de confiar na polícia, na justiça e nas instituições. Passa a medir palavras, evitar exposição e adaptar sua rotina ao medo. A política deixa de ser participação e se transforma em risco. Não é apenas pobreza ou escassez. É a ruptura do vínculo básico entre sociedade e Estado.
A isso se soma a infiltração de economias ilícitas na estrutura do poder. Quando o narcotráfico deixa de ser combatido e passa a coexistir com setores do Estado, o problema deixa de ser policial e se torna institucional. O dinheiro ilegal passa a sustentar lealdades, financiar repressões e substituir políticas públicas.
Há ainda a perda de soberania real. A influência de assessorias estrangeiras em áreas sensíveis como segurança e inteligência enfraquece a autonomia nacional. Decisões estratégicas deixam de responder ao interesse da sociedade e passam a obedecer a redes externas de poder.
As consequências ultrapassam as fronteiras da Venezuela. Migração em massa, criminalidade transnacional e pressão sobre países vizinhos são efeitos diretos de um Estado fragilizado. O colapso institucional não fica confinado. Ele se espalha.
O drama venezuelano não está na figura de um dirigente específico, mas na consolidação de um modelo em que partido, grupos armados, economias ilícitas e influência externa substituíram o Estado. Quando isso acontece, a democracia deixa de ser uma promessa adiada. Ela se torna inviável. E a cidadania, reduzida à sobrevivência.
Parallel Power in Venezuela
Venezuela is no longer facing only an economic or political crisis. What has taken shape is something far more serious: a state that no longer serves its citizens, but exists to protect those in power.
Over time, institutions were hollowed out from within. The ruling party stopped competing for power and began controlling it structurally. The armed forces ceased to function as neutral state institutions and became part of the political system itself. The line separating state, government, and party vanished.
In this environment, armed groups known as colectivos emerged. They are not grassroots social movements. They operate with tolerance and protection from the central власти, acting as a parallel force to intimidate, control territory, and suppress dissent. When the state loses its monopoly over force, citizens lose their most basic protection.
The impact on daily life is immediate. Trust in police, courts, and institutions collapses. Citizens weigh their words, avoid exposure, and organize their lives around fear. Politics becomes a personal risk rather than a civic space. This is not only about poverty or shortages. It is about the breakdown of the social contract.
Compounding this is the penetration of illicit economies into state structures. When drug trafficking is no longer fought but tolerated or embedded within power, the issue becomes institutional. Illicit money reshapes loyalties, finances repression, and replaces public policy.
There is also a loss of real sovereignty. Foreign influence in sensitive areas such as intelligence and security weakens national autonomy. Strategic decisions no longer answer to society but to external power networks.
The consequences extend beyond Venezuela’s borders. Mass migration, transnational crime, and pressure on neighboring countries are direct results of a weakened state. Institutional collapse does not remain local. It spreads.
The Venezuelan crisis is not about personalities. It is about a model in which party, armed groups, illicit economies, and foreign influence have replaced the state itself. When that happens, democracy is no longer delayed. It becomes impossible. And citizenship is reduced to survival.


