Há vidas que atravessam o tempo como se fossem pontes, firmes, sólidas, construídas com a precisão rara daqueles que conhecem a responsabilidade de erguer algo que permanece. Nilson Figueiredo pertence a essa linhagem. Não apenas viveu um século, ele o construiu, e o fez com a determinação silenciosa e elegante dos homens que falam pouco, mas realizam muito.
Mineiro de raiz, daquele Minas que guarda história, honra e memória, trouxe consigo o sotaque discreto e a firmeza das montanhas onde nasceu. Estudou, tornou-se engenheiro mecânico e colocou seu talento a serviço de um Brasil que crescia e acreditava em si. Passou pela USIMINAS, pela ELETROSUL, pelas obras monumentais como Itaipu Binacional, onde seu conhecimento ajudou a domar águas gigantescas e transformá-las em energia, progresso e soberania. Barragens como aquela não se sustentam apenas com cálculo ou concreto. Exigem caráter, convicções e respeito ao que é maior que nós. Nilson sempre teve tudo isso.
Seu coração, no entanto, nunca coube em uma única geografia. Dividiu-se, sem jamais se partir, entre as montanhas da sua Minas e as águas luminosas de Santa Catarina, onde escolheu viver grande parte de sua vida. Em Florianópolis tornou-se mais do que residente. Tornou-se referência. Amigo, conselheiro, pioneiro de Jurerê Internacional, parte viva da história da ilha e testemunha lúcida de sua transformação. Hoje, não há quem o conheça sem dizer, com um sorriso cúmplice, que talvez ele seja o mineiro mais barriga-verde que o Brasil já viu.
Casado com Dona Lourdes, sua companheira de estrada e de sonhos, formou filhos, viu nascer netos, acolheu bisnetos e fez da família sua maior obra, aquela que, diferente das barragens, não segura a água, mas multiplica o amor. E ali está ele ainda, firme, sereno, lúcido, com a leveza de quem sabe que viveu com propósito.
Agnóstico por convicção, nunca precisou de dogmas para seguir princípios. Viveu e vive como exemplo das virtudes centrais da tradição ocidental. Honestidade, disciplina, responsabilidade, liberdade, coerência e respeito foram e são os pilares que sustentam sua trajetória. Em tempos de relativismo, Nilson é fundamento. Em tempos de narrativas, é fato. Em tempos de medo, é coragem.
Democrata por essência, indignado sempre que viu injustiças, jamais se calou diante da arbitrariedade. Condenou ditaduras ontem e condena hoje. Rejeita o aprisionamento de inocentes e o aplauso a réus confessos. Para ele, a justiça não se negocia, a liberdade não se relativiza e a verdade não muda porque mudou o poder.
Nilson Figueiredo não apenas chegou aos cem anos, chegou inteiro, admirado, necessário e inspirando aqueles que entendem que envelhecer não é parar, é ensinar.
Hoje, 29 de novembro de 2025, ao erguer sua taça, como na foto em que brinda ao lado de sua Lourdes, ele não celebra apenas tempo, celebra significado.
E nós, seus amigos, vizinhos, admiradores e compatriotas, celebramos a raridade de ter entre nós um homem que honrou sua vida, sua família e seu país. Um homem cuja biografia cabe num livro, mas cabe ainda melhor num abraço.
Parabéns, Nilson.


