Som Imaginário – A Matança do Porco (1973)

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                A psicodélica e efervescência que ocorria no Brasil alguns anos após o golpe militar daquele último dia de março de 1964 vinha colhendo bons frutos a caráter de qualidade musical. Um dos músicos tupiniquins a fazer todo esse estudo do que ocorria fora das nossas fronteiras foi Ronnie Von, com um álbum homônimo que resgatou muito do som da invasão britânica. Já nessa época, esse tipo de som era visto como uma afronta tanto ao regime como a música popular brasileira que estava estabelecida. É numa dessas bandas que surge o Som Imaginário, que na sua formação do primeiro lançamento contava com Zé Rodrix, Robertinho Silva, Frederiko, Luiz Alves, Tavito e Wagner Tiso. O lançamento, recheado da musicalidade ácida era camuflado pelas habilidades “jazzísticas” que tinham metade de seus integrantes, Tiso, Alves e Silva, que traziam consigo um universo de sonoridades que fariam dessa banda muito mais do que uma banda psicodélica. Os primeiros anos do artigo quinto passaram, e com eles a saída de Rodrix do grupo (formando trio com os colegas Sá e Guarabyra), além de um lançamento, dessa vez bem mais ácido e pesado que o anterior, justificando à batuta que agora Fredera regia o grupo. Como prova dessa habilidade quase camaleoa dos músicos, “A Matança do Porco” representaria mais um capítulo na história dessa banda, que de mera acompanhante das turnês de artistas como Milton Nascimento e Marcos Valle, viria a ser, por um curto espaço de tempo, dona de sua própria fama.

                A ordem dos lançamentos anteriores do grupo auxilia na explicação das decisões tomadas nesse singular lançamento. Enquanto “Som Imaginário” e “Som Imaginário – Nova Estrela” estiveram regidos por Rodrix (assinando faixas, tocando flauta, nos vocais e nas teclas) e por Frederyko (nas guitarras distorcidas, vocais e nas composições), dessa vez o trabalho todo ficou por conta não de dois músicos de formação em rock e que já não estavam mais na formação da banda, mas sim por Tiso, que era um jazzista convicto. A ordem dos acontecimentos o permitiu assinar as faixas além de arranjar todas as melodias daquele que seria até segunda ordem, o único álbum sem a psicodelia, presente muito fortemente em momentos anteriores. Uma ressalva interessante é que os músicos de sessão tiveram papel fundamental na sonoridade, a exemplos de Danilo Caymmi, os guitarristas Chiquito e Frederyko, a percussão de Chico Batera, e as conduções de Gaya e Verocai com auxílio da orquestra da gravadora, a Odeon. A produção seria ainda marcada pelo trabalho do competente Milton Miranda.

                Trabalhado em sobressalto às teclas e os arranjos de guitarra dos três guitarristas envolvidos, o álbum premia o ouvinte com nove faixas que caminham muito por dentro da sonoridade do jazz, do progressivo e da música regional. De forma geral, é talhado em cima do instrumental, que como obra máxima possui “A Matança do Porco” (e sua incrível capacidade de passar diversos sentimentos ao ouvinte, como o padecimento e a angústia). Com mais de onze minutos de duração e dividida basicamente em um primeiro momento (até os sete minutos) carregados de um rock progressivo mais pesado, com uma espetacular linha de guitarra de Fredera seguido por uma parte altamente sinfônica (sob a batuta de Gaya, em uma de suas duas participações) e com os arranjos vocais de Milton Nascimento e do quarteto vocálico Golden Boys, sequência que se mantém até o final da faixa. Uma boa junção entre Tiso e o som mais antigo do grupo é a sequência “Armina”, que caminha mais pelo jazz, e que conta em momentos oportunos, com a presença do fuzz da guitarra de Frederyko, já como músico de sessão e em uma de suas três participações na obra. Ainda em relação a esse tema, foram adicionadas ao álbum três vinhetas sob a batuta de Arthur Verocai, a primeira com um arranjo de sopro e basicamente sinfônica, a segunda, bastante jazzística e com um Tiso bastante inspirado e a terceira estritamente sinfônica, com os metais e o violino bastante presentes, contando com 0:45, 0:33 e 0:40, respectivamente. Partindo para um jazz fusion com bastante brasilidade temos “A3”, que é a faixa que explora melhor o conjunto: Alves no contrabaixo, Silva nas baquetas, Tavito e Chiquito nas guitarras e Tiso nas teclas, e é por esta linha que o grupo sai do local comum na música comercializada, não bastaria apenas utilizar uma tendência do momento, mas deveria-se quebrar barreiras utilizando muito da nossa música tradicional. É nessa tônica que a oitava música do álbum, “Mar Azul” é trabalhada, sobre a regionalidade e com a especialíssima participação de Danilo Caymmi na flauta, que gera uma riqueza ainda maior a música. A boa-divergência (que enriquece a obra) pode ser finalmente reduzida em duas faixas: a progressiva e lisérgica “A nº2”, (que possui em sua raiz um shape do samba) com nova presença de Frederyko (contando com sintetizadores e uma sequência de cozinha muito boa para o final da faixa) e o “Bolero” de Wagner, liderados por seus riffs de teclas e o contrabaixo de Alves, além de nova participação de Caymmi.

                Finalizado em 1973, esse marcaria o último registro em estúdio do Som Imaginário. A inovadora obra que acabara de ser lançada, logo receberia o reconhecimento do público específico para estar no hall dos melhores álbuns progressivos das Américas, uma grande marca principalmente por se tratar de uma época em que o gênero era profundamente difundido e inovado pelo continente. Os feitos dessa reduzida formação do Som Imaginário marcaram não só uma nova fase na carreira dos músicos (de forma individual), mas um marco para o rock nacional, que alcançava outro patamar a critério de universo musical. A última obra desta banda ratificaria uma capacidade ímpar e não mais vista desde então em manusear as diversas musicalidades, além de uma discografia dignamente intocável no rock brasileiro.

Vinicius Almeida

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