O VENTO QUE SOPRA CÁ – By Laurindo Junqueira, São Paulo, Brazil

0
62

 

I.

Há uma lição de economia que aprendi com minha mãe. E também com meu pai. É claro que foi de economia doméstica, mas ela se mostrou imensamente válida para as decrepitudes que nos afetam neste mundo globalizado. Com meu pai aprendi a não desperdiçar nem energia nem comida. Ele sempre apagava todas as luzes acesas e raspava o fundo dos tachos onde minha mãe cozinhava. E foi ele quem me ensinou a enterrar o lixo orgânico para poder aproveitar os resultados de sua decomposição, mesmo que três anos depois, em nossa horta doméstica.

II.

Mesmo reconhecendo o fato de eu ser dotado de uma sabedoria não mais do que acaciana, eu não consigo entender o porquê de os economistas, em seus planos de “desenvolvimento” (sempre para a frente e para o alto!), nunca se proporem de maneira convincente a que as nações atuais venham a se preocupar em economizar, além de buscarem eternamente o crescimento deste ou daquele índice. Economizar quer dizer gastar menos para obter os mesmos resultados que suas teorias e políticas, de vez em quando, logram produzir, embora gastando muito mais. Digo “de vez em quando” porque, como em outras vezes da história (Kondratiev que o diga), o capitalismo mundial tem dado umas balançadas bem severas… Embora eu não manje nada de economia, acho que, dentre os mais famosos dentre eles, o que abordou essa questão em situação tão crítica como a do grande crash da Bolsa de NY, foi Kaletsky, o polonês que ajudou Keynes a sair da crise. Ele, de fato, propôs, entre outras coisas, que se viesse a dar utilização máxima à infraestrutura que já instalada, fazendo a sua conservação, manutenção e melhoria de produtividade a mais não poder. É sabido que hoje esse modelo não mais é adotado pelos EUA, que preferem gerar novos empregos e novas oportunidades de desenvolvimento, trocando por novas tecnologias tudo aquilo que venha a se apresentar como já superado pelo tempo.

III.

Dizem que o Brasil é um dos países que menos economizam no mundo. Pera lá! Não é que a gente jogue dinheiro pela janela, pois isso seria loucura total! (embora tenhamos muitos loucos famosos entre nós…). Para falar sério, não sei se isso é verdade, já que acho que o mundo todo, hoje em dia, tem sido muito perdulário quanto ao uso de recursos escassos. E os recursos escassos a que me refiro são, principalmente, os energéticos e os que atinem à vida humana.

Dizem (ver o best seller de Jared Diamond) que as grandes civilizações e os grandes impérios vieram a se desfazer, quando deram lugar a outros, quando do esgotamento de algum recurso energético que foi usado de forma abusiva e culminou por se tornar tão raro que seu custo de extração, aquisição ou conquista (à força!) tornou-se tão caro que levou à inviabilidade do modelo anteriormente adotado. Há quem, ao estudar cerca de trinta civilizações do passado, insista que teria sido essa a razão geral de suas dèbacles. Este foi o caso da lenha para o império romano, por exemplo. O aquecimento dos lares, o cozimento dos alimentos, a construção das habitações, aquedutos e pontes, valeu-se em tamanha intensidade e extensão das árvores, que o território à volta de Roma, distante até 60 km de diâmetro, tornou-se um verdadeiro deserto. Também a civilização da Ilha de Páscoa teria esgotado suas árvores com conta da construção de suas magníficas estátuas de pedra. E, mais recentemente, não devemos nos esquecer que a maioria das guerras – inclusive as duas mundiais – se deram fortemente influenciadas pela necessidade de “território vital”, isto é, água, terra, minerais e energia.

V.

Nós temos alguns casos muito triviais no Brasil, os quais, apesar de sua singeleza, são altamente impactantes para o funcionamento do país e que por isso deveriam servir de modelo quanto ao que não se deveria mais fazer. Este é o caso singular do uso abusivo da água. Ainda hoje se lavam carros e calçadas de forma absolutamente descuidada, como se a condição de segundo maior detentor de fontes hídricas potáveis globais, que hoje brinda o Brasil, viesse ela a ser eterna. De fato, somente a Sibéria ultrapassa o Brasil em quantidade de aquíferos potáveis. Mas a sua água chega a estar a 50 centígrados abaixo de zero, enquanto as brasileiras constituem fontes cantantes e refrescantes, em grande parte disponíveis em rios caudalosos e perenes. Os EUA, na década de 1930 (veja-se Vinhas da Ira, de John Steinbeck) também já foram pródigos em águas superficiais … Mas seu lençol freático foi sendo progressivamente rebaixado, a ponto de situar-se a 6m de profundidade em alguns lugares. Estima-se que cerca de dois bilhões de pessoas do mundo (sobre)vivam hoje em estado de carência d’água. Há situações exasperantes em que as mulheres têm que se deslocar duas horas por dia, carregando em suas cabeças baldes de vinte litros desse líquido vital, para não deixar seus filhos morrerem de sede. E isso, dia após dia.

Outro desperdício gritante se dá com os alimentos produzidos pelo agronegócio brasileiro. Calcula-se que 8% dos grãos de soja, milho ou arroz colhidos no Brasil sejam perdidos durante o seu transporte, caídos dos caminhões e espalhados pelas estradas, onde são comidos por ratos e pássaros. E isto porque não há infraestrutura de armazenagem e de locomoção suficientemente adequada para chegar-se aos portos com tempestividade e segurança. É conveniente que se saiba, para melhor se avaliar o tamanho desse estrago, que cerca de um bilhão de seres humanos vivem em carência de proteínas no mundo todo. Se considerarmos que o Brasil possui mais terras agricultáveis que vários dos mais populosos países – considerados em seu conjunto, isto é, somados! -, a importância absoluta e relativa desse desperdício é monumental. E o é não somente para o Brasil, mas para todo o Globo.

VI.

Mas os brasileiros assistem em seu dia-a-dia, outras formas mais bizarras de desperdiçar recursos nobres. Por exemplo, a quantidade de acidentados no trânsito é idêntica à (extraordinária) cifra de 50 mil mortos a cada ano, que iguala a dos EUA (que tem uma frota de automóveis três vezes maior). E, dentre os que não morrem, 500 mil sofrem lesões permanentes, que restarão por toda a vida a impactar as pessoas, suas famílias e a nação toda … O custo dessa tragédia ultrapassa os US$ 35 bi/ ano e impacta enormemente o já tão combalido sistema de saúde, de seguridade social e de toda a economia.

Mas, diferentemente do que ocorre nos EUA, 20% desses acidentes de trânsito são causados não pelos carros, mas por calçadas malfeitas. As pessoas, de fato, escorregam, tropeçam, batem nos postes e até mesmo morrem por causa disso, especialmente mulheres com mais de 50 anos, que têm tendência mais acentuada a osteoporose. Isso sobrecarrega os leitos hospitalares de ortopedia e traumatologia de forma inaceitável, mas absolutamente tolerada pelos administradores. Os EUA também tiveram os seus graves problemas de pavimentos pouco amigáveis, até que a jornalista Jane Jacobs, que se tornou uma polemista célebre a respeito disso nos anos 1960, insistiu na importância que têm as calçadas para a seguridade e para a segurança social e individual.

VII.

Contrariamente ao que poderia pensar o leitor mais desavisado, porém, esses desperdícios todos – desde os mais triviais até os de maior monta, deveriam preocupar a todos os habitantes do Planeta, já que somos um planeta só e uma única e mesma espécie.

E já que o vento que sopra cá é o mesmo que sopra lá…

 

 

Gostou, compartilhe com seus amigos.