Traveling the world with the social purpose of eradicating hepatitis C from the map, and supported by a project to eradicate hepatitis from the Rotary Club, two young Brazilians Fred and Eduardo Mesquita promote the execution of tests that make the person aware that he has the disease, which can be silent and fatal. of the 325 million infected 90% do not know that they are infected with this virus

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The two young people have already traveled throughout the American continent and are now heading to Europe where they will continue their work on clarifying and diagnosing Hepatitis C

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Como um brasileiro está mudando a história da hepatite C em volta ao mundo

Por David Nascimento(*)

Fred Mesquita, 32, mora há pouco mais de um mês e meio em um flat na região da avenida Paulista, centro de São Paulo. “Estou amando isso aqui, dormir em cama, ter banheiro”, afirma o ator e diretor teatral e experiente palestrante motivacional. A frase é dita após dois anos morando a maior parte do tempo em um Toyota Bandeirante, ano 1998, batizado de Carona. Com a picape, Mesquita passou por 274 cidades em 20 países da América com a expedição Me Leva Junto. A meta é visitar todos os continentes em cinco anos ajudando a erradicar a hepatite C no mundo.

A doença é perigosa. Quem tem o sangue contaminado pelo vírus  fica anos sem apresentar algum sintoma. Quando surgem, com diagnóstico tardio, o paciente pode ter quadros graves como câncer e cirrose, levando a morte. Longe de tal problema, foi após uma viagem por toda a costa brasileira de veleiro em 2013 e com a vontade de pegar a estrada que Mesquita decidiu: não queria ser só turista. “Normalmente quando a gente viaja para um lugar, conhecemos pessoas do mundo todo, mas não a população local. E você só tem essa oportunidade quando alguma coisa te conecta com aquilo. Eu não queria explorar sem deixar nada em troca. Ali surgiu a ideia de fazer uma viagem social.”

Fred concluiu que o melhor a fazer era aproveitar seu conhecimento profissional em palestras motivacionais e fazê-las gratuitamente para populações carentes pelo mundo. Em uma palestra à dirigentes rotarianos, porém, o plano da viagem social foi além. O Rotary Club, associação internacional da qual ele faz parte, presta serviços humanitários e possuía um projeto mundial chamado Hepatitis Zero. Sugeriram que Mesquita entrasse na causa e, quando soube do Dia Mundial de Combate à Hepatite, não havia mais volta. “Descobri que é 28 de julho, data em que nasci. Parecia que eu estava predestinado a fazer isso”, enfatizou.

Com destinos e propósitos definidos, Mesquita se juntou ao irmão, José Eduardo, 34, entrou no Carona e partiu para a expedição. Na oportunidade, os dois já haviam sido nomeados embaixadores do Hepatitis Zero e feito um curso intensivo sobre a doença. O roteiro em cada cidade consistiria sempre em fazer palestras informativas nas universidades, hospitais, centros de saúde e clubes do Rotary, criar novos embaixadores e, por último, dependendo do país, fazer o teste de hepatite. “Na maior parte dos países nós não conseguimos executar pessoalmente os exames por questões legislativas. Estrangeiros normalmente não tem permissão para fazer isso. Burocracia.” É nessa hora que entram os embaixadores regionais. Eles solicitam o material, semelhante aos glicosímetros de diabetes, fazem associação com as instituições ligadas a saúde e executam testes rápidos de forma massiva na população. O resultado sai em cinco minutos.

Em um momento, imaginei o motivo de ele estar contando tudo aquilo de um flat, local marcado para a entrevista. “São cinco anos sem casa”, responde. “A minha está alugada. Senão, na primeira dificuldade teríamos aonde correr. E acontece, porque vivemos muita coisa.” A parada em São Paulo, que durará até o fim de fevereiro, é para aguardar o Carona ser transportado para a Europa, continente seguinte da jornada, e divulgar um financiamento coletivo do livro Me Leva Junto na plataforma Catarse (www.catarse.me/melevajunto). É nessa publicação que o viajante conta em detalhes todas as aventuras da primeira etapa da expedição e apresenta reflexões com suas experiências. “O crowdfunding é para custos de impressão inicial, revisão ortográfica e gramatical, diagramação, capa e registros. Após a venda de 700 livros, que pagam essa parte, as impressões serão para seguir viagem”, explica. Das histórias contadas no livro, segundo Mesquita, uma trouxe a lição mais preciosa.

O presidente e o mendigo

A expedição pela América rendeu encontros com estadistas, parlamentares, líderes de exército e personagens das mais diferentes cúpulas políticas e sociais de cada país. Em um domingo de 2016, Fred e Eduardo foram convidados para almoçar com a família do presidente José Mujica em sua casa, localizada em uma área rural a dez quilômetros de Montevidéu, Uruguai. Três semanas antes do encontro com o uruguaio, porém, em um vilarejo próximo a Caaguazú, no Paraguai, a vida de um mendigo que fez o teste de hepatite talvez tenha marcado muito mais na mente dos irmãos.

Os dois foram convidados pelo homem de trajes bem simples e desgastados para jantar. No local, viram uma casa de barro, onde o fogão eram alguns gravetos na parte externa da moradia. A panela era velha e distorcida e não havia mesa. Cada um tinha um pratinho de plástico com arroz. “Aí que a mulher dele veio, um sorriso de orelha a orelha, com um pedacinho de bife e um ovo e deu para mim e para meu irmão”, relembra. O viajante pediu uma faca para dividir entre todos, mas ela se recusou a comer. “Não sei para qual ocasião eles estavam guardando a comida, mas foi um grande soco na cara. Essa experiência com esse casal de mendigos foi impactante para mim e mudou minha maneira de pensar o mundo. Quem não tem nada, as vezes é quem te dá tudo o que tem.”

O furacão Otto

No flat, Mesquita tinha dificuldade em eleger apenas uma ou duas histórias como as preferidas. Eram muitas. Enfrentou temperaturas de -15ºC em uma barraca de camping no inverno da Patagônia, nadou ao lado de um tubarão baleia em Honduras, gritou com um urso selvagem no Colorado e ficou dois dias sozinho tentando concertar o carro. Em uma dessas, entretanto, ele cravou o maior medo da morte. “Foi o furacão na Nicarágua. Era uma situação muito tensa. Não só para a gente, mas para toda a população. Ninguém podia sair do hotel onde estávamos hospedados. Fecharam todas as janelas. As notícias eram de que o mundo ia acabar.” O susto, na verdade, aconteceu em novembro de 2016 na ilha de San Andrés, um paraíso caribenho de domínio colombiano por onde passam mais de 300 mil turistas por ano.

O nome do monstro era Otto, furacão de categoria 3 – os maiores são de nível 5 – e chegou a provocar 23 mortes nos países vizinhos continentais: Nicarágua, Costa Rica e Panamá. “Era pavor e medo. Nós começamos a perceber que em alguns momentos da vida a gente não tem controle. O que você pode fazer é esperar e ver o que acontece. A cidade não tinha estrutura nenhuma. Não é comum algo desse tipo passar naquela ilha”, diz o viajante. Os ventos em um furacão desse porte correm com uma velocidade entre 177 e 208 quilômetros por hora e costumam destruir construções de madeira. Por sorte, na ínsula eram de alvenaria.

Mesquita lembra que a energia elétrica caía e voltava, não havia internet e as informações eram escassas. “As famílias ligando em desespero, sem saber o que fazer. Choradeira. A orientação foi sair antes para comprar reserva de comida no mercado, mas a gente chegava e não tinha nem água. Era uma situação de calamidade.” Foram dois dias de isolamento desde a aproximação até o fim da passagem do Otto. “Começa com ventos muito fortes, aí chuva, aí piorava, era um barulho monstruoso, depois começa tudo de novo, chuva, vento forte.” A informação na cidade era a de que o furacão passaria exatamente em cima da ilha. Só depois, com a comunicação se restabelecendo, os irmãos souberam que o Otto passou costeando San Andrés.

Os rastros do desastre natural naquela parte da Colômbia foram de árvores caídas, sujeira, falta de telhas, boa parte dos vidros quebrados, mas ele insiste no aprendizado: “por mais que você possa ter todo dinheiro do mundo, em determinados momentos você fica num fio de náilon e a sua vida não depende do que você tem. A natureza mostra que ela é muito maior do que tudo e a gente não é nada (perto dela).”

Próxima parada: Europa

O Carona acabou de chegar de navio em Roterdã, Holanda, e aguarda o dono concluir a divulgação do livro para seguir viagem. Em termos geográficos, o objetivo da expedição Me Leva Junto é dar a volta ao mundo nesses cinco anos. Dois já foram e a América está concluída. No total, serão entre 160 a 180 mil quilômetros rodados em mais de 70 países. Além das dificuldades da aventura, a luta pela erradicação da hepatite C tem um desafio recorrente, que deve seguir nos próximos continentes. “No Brasil o tratamento é grátis. Agora, é complicado em muitos países em que a gente faz o teste, dá positivo e aquela pessoa não vai ter como tratar.” Nesses casos, o paciente é encaminhado para ONGs que trabalham com a doença e já estão batalhando por políticas públicas na área da saúde. Se for um caso mais urgente, a própria organização tenta resolver.

Fred explica que o mais importante é dar a oportunidade de a pessoa saber que está doente. Do contrário, nem as informações para lutar por um tratamento ela teria. “São mais ou menos 325 milhões de pessoas infectadas pelas hepatites B e C no mundo. 95 por cento não sabe.” Só no Brasil, 100 dos cerca de 6.000 testes realizados pelos irmãos tiveram a presença do vírus. Para o tipo C, não existe vacina. De acordo com Mesquita, a extensão do resultado com o projeto é difícil de ser calculada, pois o trabalho segue com os novos embaixadores após a passagem deles. “Por exemplo, na Argentina, depois da nossa ida, nos informaram na sequência que fizeram mais de 35 mil exames”, afirma.

Ele segue viajem otimista. Acredita que até 2033 será possível erradicar a hepatite C do mapa e continuará o trabalho social para isso. “Hoje em dia eu sou muito mais feliz em me conectar com pessoas do que lugares. A viagem para mim é muito mais antropológica do que de conhecer locais.” Mesquita para na cadeira ao lembrar que passou por diversas lindas praias, muitas igrejas bonitas e montanhas. “Aquilo deixa de ser uma grande novidade para você. Eu não viajaria mais sem um proposito social. Minha principal ambição agora é intercâmbio cultural, conhecer as pessoas, aprender com o que elas viveram e ajudar quem precisa.”

David Nascimento.’. MTB 0079659/SP/BR – Formado em jornalismo pela UAM cobriu a cidade de São Paulo durante a Copa do Mundo de 2014 pela Rádio Capital/ESPN.

 

 

 

 

 

 

 

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