As múltiplas faces de Darcy Ribeiro – OGlobo

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“Populista, sonhador, louco, debochado, polêmico, delirante, autoritário, criativo, desbocado… Quase tudo se disse de Darcy Ribeiro. Ferinas ou elogiosas, suspeitas ou invejosas, as definições só não ultrapassaram o número de cargos pelos quais desfilou ao longo de quase 50 anos de vida pública”. Foi assim que O GLOBO abriu a reportagem, publicada no dia 18 de fevereiro de 1997, sobre a morte de um dos mais notáveis intelectuais brasileiros.
Para além desses e outros adjetivos, pode-se dizer que Darcy foi um homem movido por paixões: era um apaixonado pela vida, por seu país e seu povo. Antropólogo, etnólogo, político, escritor e educador, foi um dos nomes mais importantes da cultura brasileira. O intelectual fez de sua vasta obra um instrumento para tentar compreender a formação de uma identidade nacional e entender por que o Brasil era um país que insistia em não dar certo. Darcy tornou-se conhecido, no país e no exterior, pelo trabalho com a população indígena brasileira e por sua luta pela democratização do ensino público gratuito, tanto na esfera da educação básica quanto no ensino superior.
De Montes Claros, cidade do interior de Minas Gerais, Darcy Ribeiro nasceu em 26 de outubro de 1922. Filho de um pequeno industrial e de uma professora primária, com a morte do pai, em 1925, a família mudou-se para a casa dos avós maternos de Darcy, de origem modesta. A falta de recursos financeiros impediu que o menino Darcy concretizasse o desejo de ser imperador nas festividades do Divino Espírito Santo em sua cidade natal, já que a família não podia pagar pela festa. A cidade, aliás, conheceu duas faces de Darcy Ribeiro: a do garoto tímido que, ao lado do avô, tentava angariar fundos para ajudar um asilo, e a do adolescente questionador e curioso, a quem os colegas se referiam como “intelectual bestinha”.
Aos 14 anos, se aproximando da família do pai, Darcy começou a ter maior contato com a cultura, especialmente a literatura. Ele descobriu na casa de um tio, médico, sua biblioteca, que contava com aproximadamente 300 volumes. Não tardou para que ele “devorasse” todos aqueles livros, que variavam desde romance até literatura médica.
Foi também aos 14 anos que Darcy Ribeiro testemunhou o acontecimento que mudou sua visão de mundo: uma grande estiagem assolou o sertão da Bahia e a pequena Montes Claros recebeu um grande número de flagelados que fugiam da seca. A casa da família virou um ponto de distribuição de água e comida para os necessitados. O episódio despertou no jovem a capacidade de se colocar no lugar do outro, de entender seus anseios e trabalhar para resolvê-los. Era preciso, portanto, assumir a sociedade como seu problema e foi este pensamento que norteou a atuação de Darcy durante toda a vida pública.
Em 1939, aos 17 anos, ele muda-se para Belo Horizonte para estudar medicina. Após três reprovações, entendeu que a área médica não lhe interessava e trocou Minas por São Paulo. Na capital paulista, ingressou na Escola de Sociologia e Política da Universidade de São Paulo (USP), onde se graduou em 1946, com especialização em etnologia. No ano seguinte, entrou no Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e lá, por influência do marechal Cândido Rondon, dedicou-se aos estudos etnológicos. Darcy Ribeiro, então, troca a cidade pela floresta, indo viver com os índios no Mato Grosso do Sul e, posteriormente, na Amazônia.
O período em que passou com os índios – dez anos – resultou em grande experiência para seus estudos teóricos e sua visão de mundo. Além dos próprios trabalhos etnográficos e científicos que desenvolveu – em 1950, surgia o livro “Religião e mitologia Kadiwéu” – Darcy contribuiu para formular a nova política indigenista do Brasil. Nesse sentido, elaborou um projeto de lei que visava a garantir aos índios a posse inalienável de suas terras. No entanto, o projeto sequer chegou a ser enviado ao Congresso Nacional devido à forte oposição do setor ruralista, já bastante influente na época. Além disso, criou no Rio de Janeiro, em 1953, o Museu do Índio, instituição na qual, em 1955, instalou o primeiro curso de pós-graduação em Antropologia Cultural no Brasil.
Também foi de Darcy Ribeiro o projeto de criação do Parque Indígena do Xingu. Implantado em 1961, sob a direção dos irmãos Orlando e Claudio Villas Boas, o parque foi a primeira terra indígena a ser homologada pelo governo federal.
Com a eleição de Juscelino Kubitschek para a Presidência, em 1955, Darcy Ribeiro foi convidado para elaborar as diretrizes educacionais do novo governo. Nesse período conhece o educador Anísio Teixeira, árduo defensor da educação pública e de qualidade, com quem trabalha e que passa a ter influência direta em sua obra. Em 1957, Darcy assume a direção da Divisão de Estudos Sociais do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), vinculado ao Ministério da Educação. Na ocasião, participa de forma ativa das discussões para a elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, promulgada em 1961.
Em 1962, foi inaugurado um projeto ao qual Darcy Ribeiro se dedicou desde o final dos anos 1950: a Universidade de Brasília, a qual ele costumava chamar de “utopia concreta”. Isso porque a UnB, administrativamente, foi criada como uma espécie de fundação, de modo que não sofresse com a burocracia ministerial que pairava sobre as universidades federais. Ao contrário, deveria reger a si mesma, de forma livre e responsável, como um serviço público autônomo. Esse caráter revolucionário também estava presente no próprio conceito de universidade defendido por Darcy: cursos com maior comunicação entre si, permitindo uma formação mais ampla a partir de “troncos básicos de disciplinas gerais”, bem como o diálogo com pesquisadores do exterior. Darcy Ribeiro foi o primeiro reitor da universidade, ocupando o cargo entre 1962 e 1963.
Com a posse de João Goulart na Presidência da República, em 1961, Darcy foi nomeado ministro da Educação. Dois anos depois, assumiu o gabinete da Casa Civil da Presidência, cargo que ocupou até o golpe civil-militar de 1964. Com a instauração do regime autoritário, ele teve seus direitos políticos cassados e, com a promulgação do Ato Institucional número 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968, foi preso e permaneceu nove meses na cadeia.
Durante o período em que os militares estiveram no poder, Darcy Ribeiro foi exilado em países da América do Sul, como Uruguai e Venezuela – onde promoveu reformas educacionais – além de nações como Costa Rica e Argélia, onde criou universidades. No ocaso da ditadura, com a lei da anistia, o educador retorna definitivamente ao Brasil em 1979, aliando-se a Leonel Brizola – de quem se tornou amigo durante o exílio. Eles fundam o Partido Democrático Trabalhista (PDT), pelo qual Darcy se elegeu vice-governador do Rio em 1982, na chapa com Brizola.
Durante seu mandato, Darcy Ribeiro idealizou um projeto educacional pioneiro no país: o Centro Integrado de Educação Pública (Ciep). A proposta era sanar as necessidades das camadas populares, tanto educativas quanto sociais. Assim, além das aulas formais, os alunos – que passavam o dia todo na escola – contavam com atividades culturais e esportivas, alimentação e assistência médica. Para o educador, era preciso aproximar a escola da comunidade para que ela se sentisse parte integrante da mesma. Este era o caminho necessário para uma mudança no sistema educacional do Estado, que, diante dos altos índices de analfabetismo e evasão escolar, já se mostrara ineficaz. Em entrevista ao GLOBO em 10 de julho de 1980, Darcy Ribeiro fala sobre o que julga serem as causas da ineficiência da educação no Rio de Janeiro:
– A causa de um sistema educacional tão ineficaz é o autoritarismo, a incompetência, a brutalidade e o descaso das autoridades com a educação popular. Não se pode esperar que venha um socialismo, como muitos desejam, para resolver o problema. O nosso papel é exigir que este capitalismo que deu boas escolas no mundo inteiro, cumpra o seu dever aqui e agora.
Além dos Cieps, Darcy Ribeiro aliou o amor pela educação a uma outra paixão: o carnaval. Ele idealizou a construção do Sambódromo, na região central do Rio, sendo um lugar fixo dos desfiles das escolas de samba na época do carnaval (evitando o monta-desmonta arquibancadas de anos anteriores), mas que, no resto do ano, abrigaria a maior escola pública do mundo, pois o projeto original previa a construção de 200 salas de aula. A passarela do samba, cujo nome oficial é Passarela Professor Darcy Ribeiro, foi inaugurada oficialmente em 1984 e se tornou um cartão postal do Rio de Janeiro.
Darcy Ribeiro seguiu na política até o fim da vida. No Rio, seu apartamento de um quarto na Rua Bolivar esquina com a Avenida Atlântica, em Copacabana, virou uma referência para intelectuais, políticos e jornalistas. Após perder as eleições ao governo do estado em 1986 para Moreira Franco – investigado pela Operação Lava-Jato – elegeu-se senador em 1990, mas não chegou a completar o mandato. Morreu em 17 de fevereiro de 1997, vencido pelo câncer, doença contra a qual lutava desde a década de 1970.
Sua obra o tornou imortal: seus ensaios etnográficos e os romances que escreveu (entre eles “Maíra”, de 1976) o levaram à Academia Brasileira de Letras (ABL), para a qual foi eleito em 1992. Ele ocupou a cadeira número 11, cujo patrono foi o poeta Fagundes Varela. Darcy foi sucedido na ABL pelo economista, pensador e ex-ministro Celso Furtado.

OGLOGO 2017/20/02

Natasha Correa Lima – com edição de Gustavo Villela, editor do Acervo O GLOBO
Leia mais sobre esse assunto em http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/antropologo-educador-politico-escritor-as-multiplas-faces-de-darcy-ribeiro-20930979#ixzz4ZElHhLeo
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